A morte solitária de Marilyn – Manchete de 18/08/1962

Durante os trinta e seis anos em que viveu, ela perseguiu a glória, a fortuna e o amor. Em nenhuma ocasião, todavia, logrou reter suas conquistas. Diversas vezes Marilyn Monroe teve que começar tudo de novo. Apenas o mito, criado em torno de seu nome, jamais desapareceu. MM, que ganhou celebridade internacional como “a moça da folhinha”, foi encontrada morta, despida e solitária, num modesto apartamento de Los Angeles.
O fim da deusa loura do cinema entrará no rol dos impenetráveis mistérios de Hollywood. Seu último desejo foi o de ser lembrada como boa atriz e não como uma mulher bonita que exibia o corpo.
“Na minha certidão de nascimento lê-se o nome de Norma Jean Mortenson. Disseram-me, desde pequena, que meu pai morreu num desastre de automóvel antes que eu nascesse. É tudo o que sei sobre minha origem e é o que sempre respondo quando me indagam a esse respeito. Na verdade, jamais pude comprovar esta história.”
Marilyn Monroe fez esta revelação, anos atrás, ao jornalista Pete Martin, incumbido de escrever uma de suas muitas biografias. “Notei desde o inicio”, contou ele a alguns amigos, “que a estrela não gostava de falar do passado. Muitas vezes confundia fatos e trocava datas de propósito, com o fim de deixar as coisas um tanto ou quanto obscuras.”O certo é que a pequena Norma nasceu e cresceu como órfã. Morou um tempo com a mãe e, também, com uma tia. Tinha onze anos de idade quando foi levada para um orfanato. O pessoal do Los Angeles Orphan’s Home ainda se recorda da menina morena que ali entrou chorando, enquanto repetia: “Eu não quero ficar aqui, não quero! Eu não sou órfã. Minha mãe ainda está viva.”
Os responsáveis pelo internamento tinham sido os Lesters, casal de artistas aos quais Gladyz, mãe de Norma, confiara a filha. Como passassem três meses sem que Gladyz remetesse qualquer dinheiro para o sustento da menina, seus anfitriões resolveram interná-la. No entanto, Norma Jean foi designada para trabalhar na cozinha. Três vezes por dia lavava e enxugava pratos, copos e talheres de cem pessoas.
Durante dois anos ficou encerrada naquele casarão. Sua mãe, embora sofrendo das faculdades mentais, tirou-a do internato. Mas, o mal já estava feito: Norma contraíra tremendo complexo de inferioridade. Chegou a comentar com uma amiga: “Durante aqueles vinte e quatro meses eu quase quase não abri a boca para falar. Acabei, mesmo, ficando com medo de pronunciar qualquer palavra. Durante as aulas, no orfanato, era sempre ridicularizada pelos colegas, pois só respondia errado aos professores. Tinha a impressão de que todas as pessoas eram más. Aliás, até hoje não me sinto bem nas festas e recepções nas quais há muitos desconhecidos.”
Com treze anos de idade, iniciou uma peregrinação pelas casas de diversas famílias, membros de instituições beneficentes da infância desamparada. Dois anos depois, tendo sofrido muitos dissabores, foi recebida por Ana Lower. Era uma viúva que não tinha filhos. Desde o primeiro dia, simpatizou com Norma Jean. Espirituosa e inteligente, sabia que o afeto das crianças não pode ser comprado apenas com doces. Tocava piano e sua diversão predileta consistia em cantar com a menina. Certa ocasião, deu-lhe de presente um suéter azul. No dia seguinte, a pequena causou sensação na escola. Já tinha o busto bastante crescido e o suéter lhe realçava as formas.
De filha de mãe com problemas mentais, ela transformou-se num ícone do cinema mundial

“Lembro-me”, conta Marilyn, “que naquele dia eu fui a grande sensação da escola. Os rapazes me rodearam e cantaram em coro: Norma Jean – human bean (feijão humano).”Foi Ana Lower quem apresentou a filha adotiva a Jim Dougherty. O rapaz, com 21 anos de idade, já fora corretor de imóveis, mecânico de geladeiras, auxiliar de tipógrafo, balconista de bar e auxiliar de escritório numa companhia de aviação. O namoro entre os dois foi rápido. Meses após o primeiro encontro, a própria benfeitora da moça encarregou-se de redigir o seguinte convite: “Ana Lower tem o prazer de convidá-lo para assistir ao casamento de sua sobrinha Norma Jean Mortenson com o senhor James E. Dougherty, a realizar-se no dia 19 de junho de 1942, na residência do casal Chester Howell, Avenida South Benftley, Los Angeles, Califórnia.” A futura estrela tinha, então, 16 anos de idade.

Foram morar com os pais de Jim num subúrbio de Los Angeles. Norma não suportou os pais do marido e passava os dias trancada no quarto. Mudaram-se então para uma casinha, mas o casamento já estava praticamente desfeito. Dougherty foi convocado para o serviço militar. Embarcou num navio, em San Francisco, e rumou para as Filipinas. A esposa, sozinha, empregou-se numa fábrica de material bélico. O divórcio foi decretado enquanto Jim lutava na Pacifico. Pouco depois, Marilyn quase caiu em desespero, quando Ana Lower morreu. No seu primeiro trabalho, todavia, surgiu a sua primeira chance. Ela própria contou a Pete Martin:
“Era uma fábrica de paraquedas. Um dia apareceram por lá uns fotógrafos do exército, encarregados de documentar o nosso trabalho. Pediram para tirar minha foto, em separado. Um deles perguntou se eu não tinha um suéter. Semanas depois o mesmo fotógrafo apareceu na fábrica com um belíssimo Ecktachrome, perguntando se eu não queria ser modelo. Só então cheguei a conclusão de que ganhar cinco dólares por hora, posando, não deveria ser nada mau.”
As colegas de trabalho aconselharam-na a procurar, em Hollywood, uma escola de elegância chamada Blue Book. Ali ela aprenderia etiqueta e a arte de ser modelo. Mas, não seria aquela a sua primeira ida à capital do cinema. Ana Lower costumava dar-lhe dinheiro para ali passear aos domingos. Queria encontrar nas ruas algum artista famoso, mas isso nunca aconteceu.
Em Hollywood, fez amizade com Miss Snively, proprietária da Blue Book, que, além de escola, também era agência de modelos. Ganhava 80 dólares semanais, enquanto aprendia de “A” a “Z” a arte de posar para uma câmara. Figurou em anúncios de cervejas e dentifrícios. Ela mesma contou, certa ocasião:
“Apareci nas capas de dezenas de revistas. Cada vez inventavam um nome diferente para mim: Norma Jean Dougherty, Norma Jean Baker, Jean Norman e uma porção de outros. A maioria das fotos era “sexy”.”
“Excepcionalmente, posei, de maneira bucólica, para uma revista chama Family Circle.” Segurava uma carneirinho. A colunista Hedda Hopper escreveu, então, que o célebre Howard Hughes se interessara pela minha foto e que mandaria chamar-me para uma entrevista. Mas isso não aconteceu. No entanto, fui procurada por Harry Lipton, da Fox, que me apresentou a Ben Lyon, descobridor de talentos da companhia. Assinei um contrato de 125 dólares por semana. Confesso que, até então, eu jamais sonhara em ser artista de cinema. Apenas queria ganhar mais dinheiro.”
Ivan Kahn, auxiliar de Lyon, na Fox, descreveu, anos atrás, num artigo, como transcorreu o primeiro dia de Marilyn Monroe no estúdio: “Quando ela entrou no palco, Ben Lyon pôs-se a gritar: Olhem! Olhem! Jean Harlow ressuscitou! A moça ainda estava um tanto atordoada com aquela recepção, quando Ben acercou-se dela e acrescentou,  eufórico: E não só Jean Harlow, não, sabe? Você também lembra muito Marilyn Miller. Mas, desculpe, eu esqueci de perguntar o seu nome. A moça respondeu com timidez: Norma Jean. Ben Lyon prosseguiu: Precisamos arranjar-lhe outro nome. Algo que tenha a ver com Jean Harlow. A loura mal conseguia argumentar: O nome de solteira de minha mãe era Monroe e eu gostaria de conservá-lo. Ben roeu a unha nervosamente e concluiu: Deixe-me ver, Jean Monroe …Não, não soa bem. Espere, mas nós também falamos em Marilyn Miller. Que tal Marilyn Monroe? Assim foi batizada a nova estrela.”
A Imprensa americana tentou por todos os meios inventar um romance de MM com o francês Yves Montand. Eles trabalharam juntos no filme “Adorável Pecadora”. O galã europeu declarou: “Marilyn é a mulher mais torturada do mundo. Tem medo de envelhecer.”

O primeiro papel de Marilyn Monroe, no cinema, foi muito simples. Num cenário de bar de segunda classe, ela devia ficar sentada com um copo de uísque na mão. O galã entrava em cena e não lhe dava a menor confiança. A atriz aproximava-se dele, emitia um lânguido “alô” e via-o afastar-se. Mas quando o filme ficou pronto, o diretor julgou a tal cena desnecessária e suprimiu-a do roteiro. O que aconteceu em seguida foi narrado pelo famoso Ben Hecht, num recente livro sobre Hollywood: “Marilyn Monroe tinha um contrato de atriz principiante, na Fox, para fazer quartos e quintos papéis. Assim, estava com o ganha-pão assegurado e não precisava mais posar para anúncios. Um dia, recebeu a comunicação de que o seu contrato fora cancelado e tentou o suicídio. Felizmente, com insucesso. Joe Schenk obteve-lhe, então, com Harry Cohn, um contrato para a Columbia. Duas semanas depois, ela recebeu um recado: Cohn queria conhece-la. Apresentou-se. Harry mostrou-lhe uma bela fotografia: Gosta? Era de um belo iate. Lindo, disse Marilyn. Que tal passar o fim-de-semana neste iate? A lourinha nem pestanejou: Teria imenso prazer em passar o fim-de-semana com o senhor e a sua esposa. O chefão ficou rubro: Como ousa falar em minha esposa? Quem você pensa que é para se misturar com a minha família? Ponha-se daqui pra fora e aprenda a ser educada! Marilyn dirigiu-se para a porta, mas, antes de sair, teve um rasgo: Espero que o senhor, futuramente, renove seu convite, Mr. Cohn! Era audácia demais. Um grito encerrou o caso: Está despedida! Nunca mais volte ao meu estúdio! Marilyn Monroe partiu, e, com ela, 50 milhões de dólares de futuras bilheterias…”

Quando se separou de Joe Di Maggio, disse: “As mulheres que buscam a felicidade no casamento não podem ter Tv no quarto de dormir.”

Durante meses ficou sem qualquer trabalho e gastou até o seu último centavo. Lembrou-se, então, de Tom Kelley, um fotógrafo com o qual fizera amizade nos tempos da Blue Book. Soube que ele retratava moças despidas e vendia as fotos para uma companhia impressora de calendários. Kelley era o tipo do sujeito honesto. Antes de retratar qualquer modelo, costumava prevenir: “Saiba que você será reproduzida em milhares de folhinhas, a serem espalhadas por todo o território americano.” Marilyn posou para uma foto, tendo como fundo uma cortina de veludo grená. Estava inteiramente nua. Já pouco tempo, ela revelou: “O trabalho de Keley não demorou mais de 15 minutos. Para mim, todavia, dura até hoje.”

Recebeu 50 dólares pela fotografia. Mas teve sorte, pois recebeu um telefonema da Metro. Encaminharam-na ao estúdio “C”, onde foi recebida por um rapaz alto. Era John Huston que, laconicamente, perguntou-lhe: “Você sabe representar?” O jovem diretor explicou-lhe, em poucas palavras, qual seria o seu trabalho em “Asphalt Jungle” (O Segredo das Jóias). Louis Calhern ficaria sentado num sofá e ela, deitada sobre sua perna, numa atitude de amantezinha estúpida e sofisticada, deveria olhar para o ator e chamá-lo de “titio”, com voz de boneca. A cena saiu perfeita e quando o filme (um dos clássicos do cinema americano) foi exibido, a Metro recebeu milhares de cartas indagando: “Quem é aquela loura?”
Os diretores do estúdio quiseram, logo, contratá-la. Mas era tarde. A Fox passara-lhes à frente, oferecendo à atriz principiante 500 dólares por semana. A sorte começara a sorrir para ela com toda a intensidade. Obteve outro pequeno papel.

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