A prosa picante de Quevedo

Texto de Bira Câmara

No século II de nossa era, Luciano de Samósata escreveu o Elogio à Mosca; na Renascença, Erasmo de Rotter­dam fez o Elogio à Loucura; no século XIX o nosso José de Alencar o Elogio da Palavra; e, em tempos mais recentes, Jorge Luis Borges pro­duziu o Elogio da Sombra e Vargas Llosa o Elogio da Madrasta, assim como tantos outros grandes autores da literatura universal, que também registraram o seu elogio a alguma coisa, sem falar nos elogios fúnebres.

GRAÇAS E DESGRAÇAS DO OLHO DO CU, Quevedo Y Villegas. Brochura, 54 páginas, formato 13,5 X 20 cm. – Bira Câmara Editor

O grande sucesso popular da obra de Eras­mo influenciou a prosa do século XVI, e praticamente impulsionou a voga do elogio imerecido de pessoas ou coisas comuns e sem valor. Na época elisabetana, tornou-se mesmo um exer­­cício popular entre os estudantes.

Assim, por quê o gênio irreverente de Que­vedo y Villegas, uma das maiores glórias da literatura hispânica, não haveria de escrever o elogio ao Ojo del Culo? Esta obra — Gracias y Desgracias del Ojo del Culo (1620) — homenageia essa parte secreta do corpo cuja nobreza é menosprezada por quase todo mundo. E nesta elegia não poderia faltar também uma oportuna digressão sobre o peido, assunto que pareceria pueril e escatológico há algumas décadas, quando se ignorava as graves implicações do peido em relação à camada de ozônio e o efeito estufa. O que pouca gente sabe é que ele já mereceu uma apologia no século dezoito, século esclarecido e ao mesmo tempo irreverente e libertino. À moda de Erasmo, o Conde de la Trompette escreveu um elogio à difícil arte de peidar!

Já no século XX, o som de um peido — quem diria! — integrou uma faixa do segundo álbum solo de Caetano Veloso, lançado em 1969. Este flato musical é de autoria do maestro Rogério Duprat, em inusitado protesto à censura da época.

Como este peido não foi alto o suficiente para incomodar a censura do regime militar brasileiro, Tom Zé foi mais longe: em 1973, o seu disco Todos os Olhos estampou na capa a foto de uma bolinha de gude equilibrada num… cu! E mais uma vez os censores foram driblados. A capa deu muito que falar, ficou célebre na história da MPB, mas na verdade a foto foi executada colocando-se a bolinha de gude entre os lábios rosados de uma garota que, contraídos formaram frisos que ficaram parecidos com um cu, porém de forma mais sutil.

O fato de ter produzido um texto como es­te, que pode repugnar paladares mais seletos e requintados, não depõe em nada contra a grande­za de Quevedo. Em sua época, os grandes escritores se reuniam em academias ou congregações onde se entregavam às alegrias puras da teologia ou das humanidades, nomes como Cervantes e Lope de Vega entre outros. Mas também se di­ver­tiam produzindo peças de natureza esca­to­lógica e pornográfica, em que davam livre curso a temas licenciosos e fantasias literárias bizarras. E, ao contrário do se poderia imaginar, estes textos eram lidos em reuniões frequentadas por muitas damas da sociedade, que tomavam o cuidado de disfarçar o riso ou a vergonha cobrindo o rosto com grandes leques.

Portanto, não causa surpresa que personalidades insuspeitas cultivassem este gênero ao longo do tempo. No século XVIII, por exemplo, sabe-se que Benjamin Franklin foi um dos escritores de obras pornográficas mais fecundos de sua época. Em nossas letras, podemos lembrar o nome de Bernardo Guimarães, com seu grotesco e obsceno poema “Origem do mênstruo”.

Nestes tempos de liberalização sexual, diría­mos mesmo de putaria generalizada, nada mais oportuno do que a reedição desta obra, que pro­curamos verter para uma linguagem compreensível ao leitor atual. Não há de causar nenhum espanto, nem escandalizar ninguém, mas por certo haverá quem torça o nariz para a linguagem crua e até chula da obra. Pura hipocrisia de um tempo sem regras nem moral ou ética, e de gente sem vergonha na cara, em que putas tele­visivas e midiáticas expõem o rabo publicamente e acham que chamá-lo de bumbum é de bom tom! Em quê foi transformada a boa e velha bunda? No meu tempo, bumbum era bunda de criança, termo que já insinua­va onomatopaica­mente umas boas palmadas como corretivo de alguma estripulia. Não havia nele nada que in­sinuasse a mais leve malícia. Mas hoje, vendo pessoas adultas acostuma­das a fazer uso tão liberal e generoso de sua bunda chamá-la de bumbum é algo absolutamente ridí­culo, para não dizer revoltante!

Deve haver alguma explicação sociológica, imagino, para esta fixação brasileira por ra­bo, mas nem me aventuro a buscá-la. É o úni­co país que eu saiba que tem um concurso nacional de Miss Bunda — ridiculamente cha­mado de Miss Bumbum, diga-se de passagem.

Talvez esta fixação por bunda tenha uma razão psicológica, algo relacionado à nossa autoestima: como sempre dizemos que este é um país de merda, pode haver nisso uma relação mal resolvida com nossa origem, o… Mas deixa pra lá!

Sobre esse assunto, também não poderia deixar de registrar que o time que tem uma das maiores e mais fanáticas torcidas do Brasil chama-se Curintia. Não deve ser por acaso.

E para encerrar — antes que este texto acabe virando outro elogio ao olho do cu — lembro que, há não muito tempo atrás, o ato de fumar era considerado bonito e elegante, enquanto dar o cu era feio e vergonhoso; hoje em dia é o contrário: dar o cu é motivo de orgulho e fumar é feio…

Portanto, podemos afirmar que esta obra vem atender a um clamor público, pois em nenhum outro lugar do mundo (exceto na velha Grécia, talvez) o cu é tão cobiçado; dir-se-ia verdadeira preferência nacional, sem nenhum exagero.

NOTA BIOGRÁFICA

Tela de Juan van der Hammen a partir de um original de Velázquez

Oriundo de família fidalga, Francisco Gómez de Quevedo y Santibáñez Villegas nasceu em Madrid, a 14 de setembro de 1580 e morreu em Villanueva de los Infantes, Cidade Real, a 8 de Setembro de 1645.

A época em que ele viveu é considerada a idade de ouro da literatura espanhola, quando despontaram autores como Cervantes, Lope de Vega e Calderon de La Barca, entre outros.

Mestre da literatura picaresca, a pena satírica de Que­vedo acarretou-lhe muitas atribulações ao longo da vida. Sofreu perseguições, foi parar na prisão várias vezes e chegou até a ser alvo de um auto-de-fé “em efígie” na cidade de Veneza, de onde teve de fugir disfarçado de mendigo, devido a atuações políticas.

Quevedo passou a infância na Corte, onde seus pais desempenhavam altos cargos. O pai, Francisco Gómez de Quevedo, era secretário da princesa Maria, e sua mãe, María de Santibáñez, camareira da rainha. Logo cedo de­monstrou extraordinária inteligência, mas tinha uma deformidade nos pés, era coxo de uma perna, gordo e sofria de forte miopia. Por causa disso recebeu muitos apelidos: diabo coxo, bebedolas (beberrão), protodiabo e doutor em palhaçadas.

Órfão aos seis anos de idade buscou refúgio nos livros da biblioteca do Colégio Imperial dos Jesuítas de Madrid.

Em 1596 frequentou a Universidade de Alcalá de Henares e aprofundou os seus conhecimentos em filosofia, línguas clássicas, árabe, hebreu, francês e italiano. Estu­dou teologia e mais tarde produziria também algumas obras teológicas, como o tratado contra o ateísmo Providencia de Dios.

Quevedo no Parnaso, gravura do séc. XVII

Aos 25 anos já se destacou como poeta, aparecendo na antologia Flores de poetas ilustres (1605) de Pedro Espinosa. Antes disso escrevera a primeira versão de um romance picaresco intitulado Vida del Buscón, que se tornou célebre entre os estudantes da época.

A partir de 1606 passou a dedicar-se ao ofício das le­tras, conquistando a amizade de Lope de Vega e de Mi­guel de Cervantes. Por outro lado, também fez inimigos ao atacar impiedosamente os dramaturgos Juan Ruiz de Alarcón, Juan Pérez de Montalbán e, sobretudo, Luis de Góngora, que satirizou de forma terrível, além de acusá-lo de ser um sacerdote indigno e homossexual. Góngora o atacou com igual fúria. Na mesma época, tornou-se grande amigo de Pedro Téllez Girón, Duque de Osuna, e o acompanhou a Itália em 1613, na função de secretário, visitando Niza e Veneza.

De volta a Madrid, empenha-se em conseguir a nomeação de Osuna para vice-rei de Nápoles — o que consegue em 1616. Voltou depois para a Itália, onde o Duque o encarregou de dirigir e organizar a fazenda do vice-rei, além de desempenhar outras missões — algumas delas relacionadas com espionagem na República de Veneza.

Com a queda política do Duque de Osuna, Quevedo também é afastado para longe da corte, desterrado em 1620 para a Torre de Juan Abad (Ciudad Real), cujos domínios tinham sido comprados para ele, por sua mãe, antes de morrer. Entretanto, os seus vizinhos não reconheceram o seu direito, o que levou Quevedo a manter batalhas judiciais contra o Conselho da localidade. A sentença a favor do escritor só foi pronunciada depois da sua morte.

Afastado das intrigas da corte, escreveu algumas das suas mais celebradas poesias, e buscou consolo espiritual na doutrina estoica de Sêneca. O seu desterro foi suspenso com a entronização de Filipe IV, e suas ambições políticas renasceram. Quevedo acompanhou o jovem rei em viagens à Andaluzia e a Aragão.

Nesta época vários livreiros tinham publicado muitas das suas peças satíricas, ganhando dinheiro à sua custa. Levava, então, uma vida desordenada de boêmio: fumava e bebia muito (Góngora chamou-o de bêbedo inve­terado), frequentava bordéis, e tinha uma amante. Mesmo assim, em 1632, tornou-se secretário do rei, que levava vida tão desregrada quanto a sua.

Devido a pressões da Corte, foi obrigado a casar con­­tra a sua vontade com uma viúva que tinha filhos. O matrimônio durou apenas três meses e terminou com um divórcio que deu muito que falar (1636). Este foi um período de intensa atividade criativa.

Em 1634 publicou La cuna y la sepultura e a tradução de La introducción a la vida devota de Francisco de Sales; de 1633 a 1635 escreveu obras como De los remedios de cualquier fortuna, o Epicteto, Virtud militante, Las cuatro fantasmas, a segunda parte de Política de Dios, a Visita y anatomía de la cabeza del cardenal Richelieu ou a Carta a Luis XIII.

Em 1635 apareceu em Valência o mais importante dos libelos com o intuito de difamá-lo: El tribunal de la justa venganza, erigido contra los escritos de Francisco de Quevedo, maestro de errores, doctor en desvergüenzas, licenciado en bufonerías, bachiller en suciedades, catedrático de vicios y protodiablo entre los hombres (“Tribunal da justa vingança, erigido contra os escritos de Francisco de Quevedo, mestre de erros, doutor em desvergonhas, licenciado em palhaçadas, bacharel em sujidades, catedrático em vícios e protodiabo entre os homens.”

Em 1639, seus livros foram confiscados e o levaram para o convento de São Marcos de Leão. Depois de libertado desta prisão humilhante, retirou-se para a Torre de Juan Abad. E foi perto dali, no convento dos padres Dominicanos de Villanueva de los Infantes, que morreu, a 8 de Setembro de 1645.

Na extensa obra que deixou para a posteridade, destacam-se Os Sonhos, compostos entre 1606 e 1623, La hora de todos y la Fortuna con seso (1636), o romance Historia de la vida del Buscón, llamado Don Pablos, ejemplo de vagamundos y espejo de tacaños, impresso em Zaragoza em 1626.

Os textos reunidos nesta edição são parte de um conjunto de suas obras consideradas como festivas. Destes, apenas Gracias y Desgracias del Ojo del Culo foi publicado durante a vida do autor (1625), enquanto os dois outros textos, escritos em 1622 e 1609, só vieram a público em 1845.

Bira Câmara – www.jornalivros.com.br

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