Adolf Hiltler revelado pelos arquivos americanos (matéria de 02/02/1950)

(A matéria abaixo surgiu na revista “O Cruzeiro”, de 02/02/1950. Trata-se, portanto, de uma raridade)

Nascido de uma iniciativa americana, conservado durante vários anos nos arquivos do Departamento de Estado e nos relatórios pessoais do Presidente Truman, o documento aqui publicado foi considerado confidencial. Mas pertence à história. Descreve o homem que foi um dos maiores enigmas da nossa era, bem como um dos maiores flagelos do mundo: Adolf Hitler.
As autoridades norte-americanas em Nuremberg tiveram a idéia de ouvir um certo número de pessoas, de diversas profissões, que tivessem conhecido intimamente. Cada qual recebeu um questionário apropriado a seu papel e sua especialidade na vida do Führer. Por exemplo, os generais falaram de Hitler, o chefe do exército; os médicos falaram de suas características físicas e mentais; os íntimos referiram-se aos seus hábitos, suas amizades, suas aversões, etc.
O resultado desses depoimentos constituem provavelmente o retrato mais fiel e mais intimo jamais feito sobre Adolf Hitler.

HITLER E SEU CORPO

PRIMEIRA TESTEMUNHA – (Dr. Erwin Gieseng – otorrinolaringologista) – De 22 de julho a 7 de outubro de 1944, e em fevereiro de 1945, examinei e tratei Hitler cincoenta e cinco vezes.
Fisicamente é fácil descrevê-lo. Altura: 1 metro e 74 ou 75, musculatura mediana dos braços, das pernas e do abdômen, e não fazia nenhum exercício físico. Seu tórax um pouco pára dentro e sua respiração ofegante demonstravam uma mistura de astenia e leptossonia, a não ser que fosse devido ao esgotamento físico e moral. A camada de banha era normal; talvez um pouco mais grossa na barriga. Tinha o sistema piloso pouco desenvolvido, ao contrário da barba que era muito abundante. Nas axilas e no púbis, pilosidade normal. A pele do corpo, principalmente à luz artificial, era de uma palidez extraordinária. Nenhum defeito físico como alguns pretenderam, que Hitler tinha feito uma operação no lábio superior (diziam mesmo que tinha deixado crescer o bigode para esconder a cicatriz que esta operação tinha deixado). Nenhum aparelho dentário visível. Mas um grande numero de coroas e de dentes chumbados assim como um grande “bridge” de ouro na maxila inferior direita. Não tinha varizes nem pé chato. Órgãos totalmente normais, no lado posterior da coxa, veias ligeiramente aparentes. A hipertrofia do braço e do ombro direitos, da qual freqüentemente falavam, não existia ou então não era bastante pronunciada para que eu a notasse. A resistência física de Hitler, tendo o braço estendido horas a fio durante as manifestações do partido, é surpreendente.
Não tinha marca de vacinas no braço, mas sobre o corpo, várias cicatrizes:

1. bem no alto no lado anterior da coxa esquerda, uma profunda cicatriz, oval, antiga, incolor, resultado de um ferimento recebido em 1917;

2. na curva da perna direita, um pouco abaixo do meio do bordo superior da rótula, uma cicatriz incolor com um por dois centímetros, proveniente de uma explosão (bomba de 20 de julho de 1944);

3. no dorso da mão direita, uma cicatriz superficial, redonda, do tamanho de uma ervilha;
na orelha direita uma cicatriz bem visível, no tímpano;

4. na orelha esquerda, sob o martelo, uma cicatriz com 2 milimetros de comprimento;

5. na boca, no meio do céu da boca, uma cicatriz com 1 centimentro de comprimento, destacando-se na mucosa vermelha.

6. Sobre a mão esquerda, tinha um higroma (pequena excrescência causada pela inflamação das bolsas serosas). Seus dedos eram bastante longos e fortes. A extremidade ligeiramente cônica. Unhas curtas e chatas Lúnula bem visível em todos os dedos.

É certo que Morell lhe deu, três ou quatro vezes por semana, durante vários anos, injeções de açúcar de uva. O que não é certo é que Morell lhe tenha aplicado injeções de hormônio para apagar nele estigmas femininos. Não descobri em Hitler nenhum estigma feminino. E seu andar nada tinha de feminino ou de afetado. Ele próprio falou-me de um defeito na visão do olho direito. De acordo com o seu oculista, tratava-se de um começo de catarata. Ignoro se era de origem sifilítica. Em todo caso não tinha o mínimo sintoma de sífilis congênita. Hitler usava óculos para ver de perto. Vidro direito: 2,5 dioptrias; vidro esquerdo: 2 dioptrias. Todos os textos que lhe eram destinados deviam ser batidos por uma máquina especial que tinha os tipos particularmente grossos. Pulmões e coração normais; 72 pulsações por minuto. Pulso sonoro, regular, medianamente forte. Nada de anormal no circuito arterial. O nariz apresentava na narina esquerda um desvio: a cartilagem que o divide era deformada em direção à direita. A trompa esquerda estava nitidamente hipertrofiada no centro, com um começo de formação de pólipos.
A barriga era elástica e cedia facilmente a qualquer pressão. Nenhuma hipertrofia do baço e do fígado. A região da bexiga e a dos rins, livre. Nenhum traço de apendicetomia; nenhuma tendência para a hérnia.

120 COMPRIMIDOS POR SEMANA

Os dois exames neurológicos que fiz, em 26 de agosto e em 2 de outubro de 1944, não me permitiram (não mais que o exame radiográfico do crânio efetuado em 15 de setembro de 1944), revelar em Hitler lesões orgânicas do cérebro ou da medula espinhal. Em fevereiro de 1945, constatei um tremor em sua mão esquerda. Era uma espécie de paralisia agitada, nervosa, histérica. Nesta época o esgotamento intelectual e corporal de Hitler eram extraordinários. Da primavera de 1942 ao outono de 1944, sempre foi estimulado pela absorção freqüente de pílulas antigas contendo extrato de noz-vômica (estriquinina) e beladona na proporção de 0,04, o que o levou em setembro de 1944, a uma intoxicação com lesão do fígado e um derrame biliar que o deixou de cama durante um mês.

Sob o ponto de vista de sua constituição, Hitler era um sangüineo, com sintomas coléricos. Mas seu domínio sobre si era tão forte, que chegava freqüentemente, diante de estranhos, a dar a impressão de um homem de temperamento normal. /era um psicopata que não se podia convencer, mesmo quando os fatos falavam indiscutivelmente contra ele. Mas nunca fui testemunha de verdadeiros acessos de cólera ou de reações histéricas acompanhadas por atos excessivos tais como se jogar no chão, ou morder o tapete, etc.

Esta psicopatia constitucional e a convicção que tinha de saber e fazer tudo melhor que ninguém deram nascimento a um estado neurótico grave. Daí a importância que dava a observação do seu corpo, a atividade do seu estômago e seus intestinos, mania que tinha de sempre pensar na morte, a mania de soporíferos, de comprimidos, de injeções. No entanto Hitler não era um toxicômano.
Hitler não fumava nem bebia.
Tornou-se vegetariano a partir de 1933. Antes, comia muita carne, particularmente carne de porco bem gorda., da qual muito gostava.
É verdade que Hitler, para certas coisas, mostrava-se muito pouco exigente. Suas roupas, sua comida e seus hábitos pessoais eram simples. Mas por outro lado, gostava de construções luxuosas. Ficava contente por te um trem especial.

Seu conhecimento dos homens era medíocre. As pessoas que o cercavam estavam geralmente abaixo da média e precisamente nelas Hitler tinha mais confiança. Sua atitude amigável para alguns chefes dóceis mas incapazes (Keitel, Goering), e hostil para alguns chefes rígidos mas competnetes (Halder, Braushitsch, Rundstedt) é inexplicável. Como psicopata praticava os dois extremos: amabilidade excessiva para alguns membros; frieza total para outros dos seus colaboradores.

Como eu lhe disse uma vez: “Era o único chefe de Estado do mundo que tomou de 120 a 150 comprimidos por semana e recebeu de 6 a 10 injeções por semana!”
Não sei se Hitler tinha um sósia. Em todo caso nunca ouvi falar dele.

SEGUNDA TESTEMUNHA: (O Conde Von Schwerin, general das Forças Blindadas) – Alemão do Sul, tendo passado todos os anos de sua formação na Áustria ou na Baviera, Hitler era por natureza um estrangeiro aos alemães do Norte. Tinha tomado por modelo Frederico, o grande, e reconhecia a grandeza da obra realizada pela Alemanha do Norte sob a direção de Bismarck. Mas duvido que se tenha profundamente enraizado no modo de pensar e de sentir dos alemães do Norte.
Isto se traduzia nos domínios militares, por uma oposição íntima com a maior parte dos grandes chefes tais como: Fritsch, Branschitsch, Kleist, Bock, Manstein, Kluge, etc…
Hitler não tinha com eles nenhum contato profundo, ainda mais que a diferença de origem social era acrescentada a de origem geográfica. Sua desconfiança em relação ao Estado-Maior e ao conjunto de generais crescia sempre a despeito das vitórias obtidas no correr dos primeiros anos da guerra. Viu mesmo nestas vitórias a confirmação da idéia de que todos os sucessos alemães desde 1936 eram sua obra pessoal, realizada contra a oposição dos generalíssimos e do Estado-Maior.

Raramente a natureza reuniu em um só homem tão grandes contrastes como em Hitler. É pois extremamente difícil traçar dele um retrato realmente coerente. Seguindo o fim que queria atingir, era uma ou outra de suas qualidades que passava ao primeiro plano: a dureza ou a suavidade, a tenacidade ou a prudência, a obstinação ou a docilidade. Era impossível prever suas reações e em seguida, compreendê-las.
Possuía uma inteligência viva e muito penetrante, uma capacidade de assimilação rápida, fortes disposições para a matemática, uma memória como poucas e a faculdade de discernir claramente o essencial. A isto acrescente-se um talento oratório incontestável. Tal conjunto assegurava-lhe uma superioridade nas discussões que, mesmo os generais que tinham a palavra fácil tais como Bock e Von Manstein, não lhe faziam frente. Era capaz de justificar o seu modo de ver de uma maneira tão lógica, tão demonstrativa e tão indiscutível que obrigava o adversário a dar-se por vencido.

HITLER QUERIA CONVENCER

Quando todos os meios de persuasão tinham sido usados, Hitler, na sua qualidade de chefe de Estado e do Exército, recorria ao meio supremo: a ordem. Mas acho que ficava então insatisfeito. Não se podia adivinhar o que pensava. Era por vezes afável e delicado, mas geralmente duro até a brutalidade e tenaz até a obstinação. Era essencialmente uma natureza de artista que se tinha recoberto progressivamente com uma couraça de inflexibilidade. Não podíamos nunca prever se uma conferência seria levada com calma ou se provocaria um daqueles excessos coléricos tão famosos. Às jogava brutalmente sobre a mesa o lápis que tinha na mão e corria de um lado para outro como um louco.

Várias vezes fui testemunha de cenas deste gênero: quando recebeu o relatório do Coronel-General Hoeppner, sobre o revés diante de Moscou, em fins de 1941; quando da volta do Cáucaso do Coronel-General Jodl, em agosto de 1943; pouco antes do Coronel-General Halder ser reformado: quando dos danos sofridos pelas forças blindadas do General Heim, em novembro de 1942, quando pela luta sustentada oelo Coronel-General Zeitzler, por ter abandonado Stalingrado, etc…Estas cenas se agravaram pela freqüência, em diferentes ocasiões principalmente quando falavam do estado de Branschitsch, de Beck, de Von Bock, de Forster, mais tarde também de Manstein. Os espectadores só podiam esperar em silêncio que Hitler se acalmasse senão haveria pior.

O cumulo é que em alguns casos, Hitler podia ser acessível aos conselhos e mesmo acolher com alegria e reconhecimento as propostas que lhe eram feitas. A única coisa que um interlocutor nunca podia falar, era contradizê-lo em público. Neste caso, estava perdido.
Sua tenacidade, ligada à sua força de vontade, fizeram-no passar de domínio da dura realidade para o reino das quimeras. Depois de 1942 principalmente, tanto nas pequenas coisas como nas grandes, deixou de ver a situação como era para vê-la como queria que fosse. È assim que, em 1943-1944, acreditou que os russos estavam esgotados e abandonou sistematicamente os cálculos do estado-maior que diziam o contrário. Assim acreditou na possibilidade de se manter diante de Stalingrado; na bacia do Donetz; na Criméia; nos países Bálticos; manter uma cabeça de ponte em Salerno; em Budapeste, etc….
Assim acreditou até o último dia na derrota dos seus inimigos.

É A HISTÓRIA QUE TINHA ENSINADO A GUERRA A HITLER

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