Afrânio Coutinho, Correntes Cruzadas – Editora a Noite, 1953

“Há um sentimento desconhecido das gerações olímpicas de antes de 1914, e que é experimentado agudamente, pelos homens nascidos com o século. É a instabilidade, a incerteza do dia de amanhã, a impressão de que tudo para nós é provisório, passageiro, não tem sentido perene. Esse sentimento de provisoriedade, que Strowski e Crémieux entre outros estudaram no homem contemporâneo, e que tão bem testemunha a Literatura, constitui a origem de toda a nossa crise; crise moral, a ausência de laços normativos; crise psicológica, a incerteza ou a falta de direções doutrinárias, a inaptidão para os trabalhos da inteligência, a debilidade mental; a crise metafísica e crise religiosa, a incapacidade de viver em profundidade. Essa a nossa crise, que a inquietude contemporânea, o novo mal do século, exprimiu com patetismo. Só lhe escapam os conformados e satisfeitos, os que não indagam sobre o próprio destino, os acomodados em seu vazio interior. Todos nós, diz um de nossos companheiros, temos o ímpeto estouvado e o açodamento de quem receia perder o comboio. Não sabemos para onde se dirige, nem mesmo se partirá; mas é preciso tomar antes dos outros nosso lugar no comboio.”

Correntes Cruzadas – Editora a Noite, 1953.
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