Bibliófilos e livreiros, uma relação delicada

O alfarrabista à moda antiga, cada vez mais raro hoje em dia, mantém uma relação simbiótica com o amante dos livros, nem sempre amistosa.
Texto de Bira Câmara

A palavra bibliófilo, traduzida ao pé da letra significa “amante de livros” (do grego biblion, livro, e philos, amigo). O substantivo amante explica muito mais o bibliófilo do que o adjetivo amigo. Há muitos bibliomaníacos, com verdadeiras e colossais bibliotecas, mesmo com algumas raridades, para quem o livro é apenas um divertimento ou um investimento. Compram livros como quem compra laranjas, pela aparência e pelo peso ou tamanho (o que, no caso do livro, se pode representar pela encadernação e data da edição).

Mas o bibliófilo não é apenas aquele que tem livros do século XV e XVI, ou de épocas mais recuadas. Para isso basta ter dinheiro. Há muitos bibliomaníacos com verdadeiras fortunas em livros, que não tiram qualquer proveito deles, pois nem sequer os compreenderiam, ou têm tempo para os catalogar e arrumar. Apesar disso, ajudam a preservar o patrimônio cultural.

Alguém pode até ser bibliófilo sem possuir nenhum livro dos séculos anteriores ao nosso. O que é então necessário para se ser bibliófilo? É necessário amor, carinho e estudo pelo livro que se comprou, seja ele a primeira edição de Os Lusíadas (1572) ou a primeira edição de uma obra de Mário de Andrade.

O verdadeiro bibliófilo conhece história literária, tem suas preferências por gênero ou época; procura as edições que lhe assegurem a integridade dos textos e acompanha as reedições de acordo com as suas posses. Ao pagar por um livro raro, antes de o abrir acaricia-o com a ternura que Anatole France observou e descreveu para caracterizar um bibliófilo da sua galeria. O bibliófilo é o sibarita, que emparelha com o ‘gourmet’.”

Há diferença, pois, entre bibliófilo e bibliômano, não de essência, mas de grau de intensidade. Muitas vezes, a bibliofilia acaba se degenerando em bibliomania. E por isso, o bibliômano pode ser um homem ilustrado, um escritor, um investigador, sequioso de encontrar documentos e informações para os suas pesquisas. Ambos, porém, sentem prazer em exibir as suas coleções, são vaidosos por possuírem obras raras, que mais ninguém têm, e não esconde isso. Pelo contrário, gostam de mostrar as suas bibliotecas. Já o mesmo não acontece com o bibliótafo, palavra que significa enterrador de livros. Ou seja: o bibliótafo adquire livros, monta coleções preciosas, mas não revela a ninguém as obras que possui; esconde-as como num túmulo, e de tal forma que ninguém pode aproveitá-la; oculta-as à vista de todo o mundo.

Alfarrabista e bibliófilo, à margem do Sena em Paris, 1821

Assim como o culto silencioso do livro, há também o culto exibicionista, que se chama bibliolatria. Este amor ao livro é puramente exterior, formal, sem fundo.

Há, no universo dos amantes dos livros, o amor desinteressado, mas também há o amor interesseiro, mais comum. Àquele que acumula livros para vender, chama-se-lhe bibliópola, porque o elemento grego polein significa vender.
Não há, porém, amor que não encontre sentimento oposto. À bibliofilia, contrapõe-se a bibliofobia, que é o horror aos livros, doença bastante generalizada, embora sob disfarces vários. Um dos casos mais célebres de bibliofobia declarada é o do nosso ex-presidente da república, o Lula, que se orgulha de nunca ter lido um… Além do horror passivo aos livros, há o horror ativo, caracterizado pelo gosto de os estragar e destruir. Chama-se-lhe biblioclastia, e este inimigo dos livros é designado por biblioclasta.

Como se sabe, há ladrões de tudo, até mesmo de livros. A bibliofilia e a bibliomania podem levar ao roubo, e nesse caso o bibliófilo ou bibliômano é, além disso, biblioclepta. Aliás, todo dono de livraria sabe muito bem como é fácil roubar livros, pois são constantes vítimas de ladrões. Não me refiro aos nóias que furtam qualquer volume para vender logo adiante pelo preço de umas pedras, mas de gente insuspeita e até erudita. Sei de um livreiro que tinha entre seus fregueses um escritor renomado, que, certo dia, percebeu-o saindo da loja à francesa e um pouco mais gordo do que entrara. Foi atrás dele, interpelou-o na porta, deu-lhe um tapinha na barriga e perguntou: “O que tem aí?” Pego em flagrante, envergonhado, o erudito foi obrigado a devolver o livro que escondera por baixo da camisa e ainda teve de engolir uma vexatória descompostura do comerciante. O mais curioso é que o dito cujo se orgulhava de ter uma selecionada biblioteca em sua casa, mas nunca recebia ninguém por medo de… ser roubado!

Como é óbvio, o homem, quando ama os livros, é levado, naturalmente, a estudá-los, a procurar conhecer a sua história, título, datas das edições, lugares de impressão, editores, valor real, etc.. Esta ciência é designada por bibliognosia ou bibliognóstica, e o seu cultor por bibliognosta. “Gnosés” vem do grego e significa conhecimento.

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Em geral, há uma desconfiança mútua entre o alfarrabista e o bibliófilo. Tive uma prova disso quando editava o Jornal do Bibliófilo; ao dar um exemplar da publicação para o dono de um sebo em Copacabana, ele torceu o nariz e me perguntou com ar de poucos amigos: “O senhor é um bibliófilo?” Respondi-lhe que não, e que na verdade nem me considerava um aprendiz. Só depois disso ele mudou sua disposição de espírito. E explicou que detestava bibliófilos porque, nas suas palavras, eram pedantes e achavam que todo livreiro tinha a obrigação de conceder-lhes generosos descontos.

Principalmente nos leilões é onde fica mais evidente a rivalidade entre ambos, pois perseguem as mesmas presas com motivações diferentes: um quer comprar por uma pechincha esta ou aquela edição rara para revendê-la por uma fortuna; o outro, pela ambição de enriquecer ainda mais o seu acervo. Mas esta rivalidade termina aí, pois o livreiro sabe que tem de atendê-lo bem em sua loja. Afinal, não só é para ele que venderá suas raridades, como também é dele que recebe informações sobre edições raras e valiosas. Portanto, um não vive sem o outro.

Publicado originalmente em www.jornalivros.com.br

 

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