Edgar Allan Poe, biografia e textos

Edgar Allan Poe nasceu no nº 33 da rua Hollis, em Boston, Massachussetts, a 19 de janeiro de 1809, filho de pobres atores, David e Isabel (nascida Arnold) Poe. Seus pais achavam-se então cumprindo um contrato num teatro de Boston, e as representações de ambos, juntamente com sua permanência em vários lugares, durante sua carreira errante, podem ser acompanhadas plenamente pelos programas de teatro da época.

LINHAGEM PATERNA

O pai do poeta era um tal David, de Baltimore, Maryland, que havia abandonado o estudo de Direito, naquela cidade, para seguir a carreira teatral contra o desejo da familia.Os Poe haviam se estabelecido na América, duas ou três gerações antes do nascimento de Edgar. Traça-se distintamente sua linha ascendente até Dring, da paróquia de Kildallen, do Condado de Cavan, na Irlanda e daí até a paroquia de Fenwick, em Ayrshire, na Escócia. Portanto, derivavam eles dum tronco escoto-irlandês, sendo duvidoso que haja traços de celtas.Os primeiros Poes vieram para a América por volta de 1739. Os imediatos anepassados paernos do poeta desembarcaram em Neswcastle, Delaware, em 1748, ou pocuo mais mais cedo. Eram eles John Poe e sua mulher, Joana McBride Poe, que foram estabelecer-se na Pensilvânia oriental. Este casal teve dez filhos, entre eles David, que foi o avô do poeta. David Poe casou-se com Isabel Cairnes, também de ascendência escoto-irlandesa, e viveram em Lancaster, Pensilvânia, donde tempo antes de rebentar a Revolução Americana, se removeram para Baltimore, Maryland.David Poe e sua mulher, Isabel Cairnes Poe, tomaram partido patriótico da Revolução. David mostrou-se ativo em expulsar de Baltimore os partidários do Rei e foi nomeado “Deputado Quartel-Mestre Assistente”, o que significava ser ele agente de aprovisionamento militares para o Exército Revolucionário.Diz-se que ele prestou considerável auxilio a Lafayette, durante as campanhas da Virginia e do Sul, e por essa patriótica atividade recebeu o título de “General” honorário.Sua mulher, Isabel, tomou parte ativa na confecção de roupas para o Exército Continental. David e Isabel tiveram sete filhos.

David, o mais velho, veio a ser o pai do poeta. Duas irmãs de David, Elisa Poe (depois Sr. Henry Herring) e Mary Poe (mais tarde Sr. William Clemm) entram na história da vida do poeta, a última especialmente, por ter se tornado sua sogra, além de ser sua tia. Com ela viveu de 1835 a 1849.O jovem David Poe estava destinado ao estudo do Direito, mas como já mencionamos, deixou a cidade natal para seguir a carreira de teatro. Sua estréia profissional realizou-se em Charleston, S.C., em dezembro de 1803. Uma notícia local, descreve David Poe como sendo extremamente tímido, ao passo que:“ …..Sua voz parece clara, melodiosa e variável; qual possa ser seu compasso, só se revela quando ele representa libertado de sua timidez. Sua dicção parece ser bem distinta e articulada; e seu rosto e sua pessoa dizem muito a seu favor. Seu tamanho é daquele porte bem adequado à ação geral, se seu talento se adaptasse ao sôco e ao coturno….”É este talvez, o único testemunho direto existente do aspecto físico do pai do poeta. Não se conhecem retratos dele. Suas qualidades histriônicas eram, quando muito, limitadas. Continuou a representar papéis menores em várias cidades do Sul e em janeiro de 1806, casou-se com Isabel Arnold Hopkins, jovem viúva sem filhos, também atriz, cujo marido morrera havia poucos meses. Isabel Arnold Poe veio a ser a mãe de Edgar Allan Poe.

LINHAGEM MATERNA

A jovem viúva com quem David Poe se casou em 1806, nascera na Inglaterra na primavera de 1787. Era filha de Henry Arnold e de Isabel Arnold (nascida Smith), ambos atores no Teatro Real de Covent Garden, em Londres. Henry Arnold morreu, ao que parece, em 1793. Sua viúva continou a prover o sustento próprio e da filha, representando e cantando e em 1796, trazendo consigo sua jovem filha, veio para a América, desembarcando em Boston. A sra. Arnold continuou sua carreira profissional na América, a principio com pouquíssimo êxito. Imediatamente antes ou logo depois de chegar aos Estados Unidos, casou-se pela segunda vez com um tal Charles Tubb, inglês de poucos dotes e pouco caráter.O casal continuou a representar, a cantar e a dançar em várias cidades, por toda a costa oriental e a jovem Srta. Arnold logo foi notada nos cartazes, aparecendo em papéis juvenis, como membro de várias companhias a que sua família pertencia.

O Sr. e Sra. Tubbs desapareceram de vista, aí por volta de 1798, mas a carreira de Isabel Arnold, mãe de Poe, pôde ser seguida cuidadosamente, pelos vários cartazes de anúncios e notícias nos jornais das diversas cidades em que representou, até sua morte em 1811. Foi durante suas viagens como atriz que se casou com C. D. Hopkins, também ator, em agosto de 1801. Não houve filhos dessa união. Hopkins morreu três anos depois, e em 1806, como foi dito antes, sua viúva casou-se com David Poe.O casal continuou a representar juntos, mas com muito pouco êxito. Nasceram-lhe três filhos: William Henry Leonard, nascido em Boston em 1807; Edgar, nascido em Boston em 1809; e Rosalia, em Norfolk, V.A., provavelmente em dezembro de 1810.

Em razão de sua situação sempre de extrema pobreza, o primeiro filho Henry fora deixado aos cuidados de seus avós, em Baltimore, logo após seu nascimento.Edgar nascera quando seus pais cumpriam um contrato no Teatro de Boston. No verão de 1809, os Poe foram para Nova York, onde David Poe ou morreu, ou abandonou sua mulher, provavelmente esta última opção. A Sra. Poe foi abandonada com o menino Edgar e, algum tempo depois, deu à luz uma filha. Lançou-se suspeita, mais tarde, a respeito da paternidade dessa última criança e sobre a reputação da Sra. Poe, suspeita essa que desempenhou desgraçado papel nas vidas de seus filhos. Não é preciso dizer que tal suspeita era injusta.De 1810 em diante, a Sra. Poe continuou com precária saúde, a aparecer em vários papéis, em Norfolk , Va., em Charleston, Sc., e em Richmond. No inverno de 1811 foi prostrada por uma doença fatal, vindo a falecer a 8 de dezembro em situação de grande miséria e pobreza, na casa de uma modista de chapéus escocesa, emRichmond. Foi sepultada no cemitério da Igreja Episcopal de St. John, daquela cidade, dois dias mais tarde, mas não sem pia oposição. Sobreviviam à Sra. Poe três crianças órfãs. Duas delas, Edgar e Rosália, achavam-se com ela ao tempo de sua morte e foram tratadas por pessoas caridosas. Edgar, então com cêrca de dois anos de idade foi levado para a casa de John Allan, negociante escocês, em situação francamente próspera, ao passo que a pequena Rosália recebera abrigo em casa do casal William Mackenzie.

Os Allan e os Mackenzie eram amigos íntimos e vizinhos. As crianças ficaram naquelas casas e o fato de sua criação tornou-se, com o correr do tempo, equivalente a uma adoção..continuará.

CONTOS E POEMAS DE EDGAR ALLAN POE

O CORVO

Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite êrma e sombria
a ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,
e, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído
tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar.
“É alguém” – fiquei a murmurar – “que bate à porta, devagar;
sim, é só isso e nada mais”.

Ah! Claramente eu o relembro! Era no gélido dezembro
e o fogo, agônico, animava o chão de sombras fantasmais.
Ansiando ver a noite finda, em vão, a ler, buscava ainda
algum remédio à amarga, infinda, atroz saudade de Lenora
– essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora
e nome aqui já tem mais.

A sêda rubra da cortina arfava em lúgubre surdina,
arrepiando-me e evocando ignotos mêdos sepulcrais.
De susto, em pávida arritmia, o coração veloz batia
e a sossegá-lo eu repetia: “É um visitante e pede abrigo.
Chegando tarde, algum amigo está a bater e pede abrigo.
É apenas isso e nada mais.

“Ergui-me após e, calmo enfim, sem hesitar, falei assim:
“Perdoai, senhora, ou meu senhor, se há muito aí fora me esperais;
mas é que estava dormecido e foi tão débil o batido,
que eu mal podia ter ouvido alguém chamar à minha porta,
assim de leve, em hora morta.
” Escancarei então a porta:- escuridão, e nada mais.

Sondei a noite êrma e tranquila, olhei-a fundo, a perquiri-la,
sonhando sonhos que ninguém, ninguém ousou sonhar iguais.
Estarrecido de ânsia e mêdo, ante o negror imoto e quêdo,
só um nome ouvi (quase em segredo eu o dizia) e foi:
“Lenora!”E o eco, em voz evocadora, o repetiu também: “Lenora!”
Depois, silêncio e nada mais.

Com a alma em febre, eu novamente entrei no quarto e, de repente,
mais forte, o ruído recomeça e repercute nos vitrais.
“É na janela” – penso então. ” – Por que agitar-me de aflição?
Conserva a calma, coração! É na janela, onde, agourento,
o vento sopra. É só do vento esse rumor surdo e agourento.
É o vento só e nada mais.

“Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:
– é um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais.
Como um fidalgo passa, augusto e, sem notar sequer meu susto,
adeja e pousa sobre o busto – uma escultura de Minerva,
bem sobre a porta; e se conserva ali, no busto de Minerva,
empoleirado e nada mais.

Ao ver da ave austera e escura a soleníssima figura,
desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus ais.
“Sem crista embora, ó Corvo antigo e singular” – então lhe digo –
“não tens pavor. Fala comigo, alma da noite, espectro tôrvo,
qual é teu nome, ó nobre Corvo, o nome teu no inferno tôrvo!
”E o Corvo disse: “Nunca mais”.

Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe,
Misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em têrmos tais;
pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no presente
que igual surpresa experimente: a de encontrar, em sua porta,
uma ave (ou fera, pouco importa), empoleirada em sua porta
e que se chama: “Nunca mais”.

Diversa coisa não dizia, ali pousada, a ave sombria,
Com a alma inteira a se espelhar naquelas sílabas fatais.
Murmuro, então, vendo-a serena e sem mover uma só pena,
enquanto a mágoa me envenena: “Amigos … sempre vão-se embora.
Como a esperança, ao vir a aurora, ELE também há de ir-se embora.”
E disse o Corvo: “Nunca mais”.

Vara o silêncio, com tal nexo, essa resposta que, perplexo,
Julgo: “É isso o que ele diz; duas palavras sempre iguais.
Soube-as de um dono a quem tortura uma implacável desventura
E a quem, repleto de amargura, apenas resta um ritornelo
De seu cantar; do morto anelo, um epitáfio: – o ritornelo
de “Nunca, nunca, nunca mais”.

Como ainda o Corvo me mudasse em um sorriso a triste face,
girei então numa poltrona, em frente ao busto, à ave, aos umbraise, mergulhando no coxim,
pus-me a inquirir (pois, para mim,visava a algum secreto fim)
que pretendia o antigo Corvo,com que intenções, horrendo, tôrvo,
esse ominoso e antigo Corvo
grasnava sempre: “Nunca mais”.

Sentindo da ave, incandescente, o olhar queimar-me fixamente,
eu me abismava, absorto e mudo, em deduções conjeturais.
Cismara, a fronte reclinada, a descansar, sobre a almofada
dessa poltrona aveludada em que a luz cai suavemente,
dessa poltrona em que ELA, ausente, à luz que cai suavemente,
já não repousa, ah! nunca mais ….

O ar pareceu-me então mais denso e perfumado, qual se incenso
ali descessem a esparzir turibulários celestiais.
“Mísero!” – exclamo “ – Enfim teu Deus te dá mandando os anjos, seus
esquecimento, lá dos céus, para as saudades de Lenora.
Sorve o nepentes. Sorve-o, agora! Esquece, olvida essa Lenora!
”E o Corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta!” – brado. “ – Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal
que o Tentador lançou do abismo, ou que arrojaram temporais,
de algum naufrágio, a esta maldita e estéril terra, a esta precita
mansão de horror, que o horror habita,
– imploro, dize-mo, em verdade:EXISTE um bálsamo em Gallad?
Imploro! Dize-mo, em verdade!”
E o Corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta!” – exclamo. “ – Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!
Pelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais,
fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,
verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Lenora,
– essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora!”
E o Corvo disse: “Nunca mais!”

“Seja isso a nossa despedida!” – ergo-me e grito, alma incendiada.
–“Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais!
Nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste!
Deixa-me só neste ermo agreste! Alça teu vôo dessa porta!
Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!”
E o Corvo disse: “Nunca mais!”

E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,
sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais.
No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,
e a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.
Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,
Não há de erguer-se, ai! nunca mais!

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O BARRIL DE AMONTILLADO

Suportara eu, enquanto possível, as mil ofensas de Fortunato, mas quando se aventurou ele a insultar-me, jurei me vingar. Vós que tão bem conheceis a natureza de minha alma, não havereis de supor, porém, que proferi alguma ameaça. Afinal, deveria vingar-me. Isto era um ponto definitivamente assentado, mas essa resolução definitiva excluía a idéia de risco. Eu devia não só punir, mas punir com impunidade. Não se desagrava uma injúria, quando o castigo recai sobre o desagravante. O mesmo acontece quando o vingador deixa de fazer sentir sua qualidade de vingador a quem o injuriou.Fica logo entendido que nem por palavras, nem por fatos, dera eu causa a Fortunato, de duvidar de minha boa vontade.

Continuei, como de costume a fazer-lhe cara alegre, e ele não percebia que meu sorriso agora se originara da idéia de sua imolação.O Fortunato tinha o seu lado fraco, embora, a outros respeitos, fosse um homem acatado e até temido. Orgulhava-se de ser conhecedor de vinhos. Poucos italianos tem o verdadeiro espírito do “conhecedor”. Na maior parte, seu entusiasmo adapta-se às circunstâncias do momento e da oportunidade, para ludibriar milionários ingleses e austríacos. Em matéria de pintura e ourivesaria era Fortunato semelhante a seus patrícios, um impostor, mas em assunto de vinhos velhos era sincero. A este respeito, éramos da mesma força. Considerava-me muito entendido em vinhos italianos, e, sempre que podia, comprava-os em larga escala.

Foi ao escurecer duma tarde, durante o supremo delírio carnavalesco, que encontrei meu amigo. Abordou-me com excessivo ardor, pois já estava bastante bêbado. Estava fantasiado com um traje apertado e listado, trazendo na cabeça uma carapuça cônica, cheia de guizos. Tão contente fiquei ao vê-lo, que não cessava de apertar-lhe a mão. E disse-lhe:
– Meu caro Fortunato, foi uma felicidade encontrá-lo. Como está você bem disposto hoje! Mas recebi uma pipa dum vinho, dado como Amontillado e tenho minhas dúvidas.
– Como? – disse ele. – Amontillado? Uma pipa? Impossível. E no meio do carnaval!
– Tenho minhas dúvidas – repliquei, – mas fui bastante tolo em pagar o preço total do amontillado, sem antes consultar você. Não consegui encontrá-lo e tinha receio de perder uma pechincha.
– Amontillado!
-Tenho minhas dúvidas.
– Amontillado!
– E preciso desfazê-las.
– Amontillado!
– Se você não estivesse ocupado …Estou indo à casa de Luchesi. Se há alguém que entenda disso, é ele. Terá de dizer-me …
– Luchesi não sabe diferenciar um Amontillado dum Xerez.
– No entanto, há uns bobos que dizem por aí, em matéria de vinhos, vocês se equiparam.
– Pois então vamos.
– Para onde?
– Para sua adega.
– Não, meu amigo. Não quero abusar de sua boa vontade. Vejo que você está ocupado. Luchesi …
– Não estou ocupado coisa nenhuma … Vamos.
– Não, meu amigo. Não é por isso, mas é que vejo que você está fortemente resfriado. A adega está duma umidade intolerável. Suas paredes estão incrustadas de salitre.
– Não tem importância, vamos. Um resfriado à-toa. Amontillado! Acho q ue você foi enganado. Quanto a Luchesi, é incapaz de distinguir um Xerez dum Amontillado.

Assim falando, Fortunato agarrou-me o braço. Pondo no rosto uma máscara de seda e enrolando-me num rocló, deixei-me levar por ele, às pressas, na direção do meu palácio.Todos os meus criados haviam saído para se divertirem no carnaval. Dissera-lhes que só voltaria de madrugada e dera-lhes explícitas ordens para não se afastarem de casa. Foi, porém, o bastante, bem o sabia, para que sumissem, logo que virei as costas.

Peguei dois archotes, um dos quais entreguei a Fortunato, e conduzi-o através de várias salas até a passagem abobadada, que levava à adega. Desci à frente dele uma longa e tortuosa escada, aconselhando-o a ter cuidado. Chegamos por fim ao sopé e ficamos juntos, no chão úmido das catacumbas dos Montresors.Meu amigo cambaleava e os guizos de sua carapuça tilintavam, a cada passo que dava.
– Onde está a pipa? – perguntou ele.
– Mais para o fundo – respondi, – mas repare nas teias cristalinas que brilham nas paredes desta caverna.- Ele voltou-se para mim e fitou-me bem nos olhos, com aqueles seus dois glóbulos vítreos que destilavam a reuma da bebedeira.
– Salitre? – perguntou rele, por fim.
– É, sim – respondei – Há quanto tempo está você com esta tosse?
– Eh! Eh! Eh! Eh! Eh! Eh! – pôs-se ele a tossir e durante muitos minutos não conseguiu meu pobre amigo dizer uma palavra.
– Não é nada – disse ele, afinal.
– Venha – disse eu, decidido. – Vamos voltar. Sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado. Você é feliz, como eu era outrora. Você é um homem que faz falta. Quanto a mim, não. Voltemos. Você pode piorar e não quero ser responsável por isso. Além do que, posso recorrer a Luchesi …
– Basta! – disse ele. – Esta tosse não vale nada.Não me há de matar. Não é de tosse que hei de morrer.
– Isto é verdade … isto é verdade – respondi – e, de fato, não era minha intenção alarmá-lo sem motivo. Mas acho que você deveria tomar toda a precaução. Um gole de Médoc nos defenderá de umidade.
Então fiz saltar o gargalo duma garrafa, que retirei duma longa fileira empilhada no chão.
– Beba – disse eu, apresentando-lhe o vinho.Levou a garrafa aos lábios com um olhar malicioso. Calou-se um instante e me cumprimentou com familiaridade, fazendo tilintarem os guizos.
– Bebo pelos defuntos que repousam em torno de nós – disse ele.
– E eu para que você viva muito.
Pegou-me de novo pelo braço e prosseguimos.
– Estas adegas são enormes – disse ele.
– Os Montresors eram uma família rica e numerosa – respondi.- Não me lembro quais são suas armas.
– Um enorme pé humano dourado, em campo blau; o pé esmaga uma serpente rastejante, cujos colmilhos se lhe cravam no calcanhar.
– E qual é a divisa?
– Nemo me impune iacessit
– Bonito! – disse ele.O vinho faiscava-lhe nos olhos e os guizos tilintavam. Minha própria imaginação se aquecia com o Médoc. Havíamos passado diante de paredes de ossos empilhados, entre barris e pipotes, até os recessos extremos das catacumbas. Parei de novo e desta vez atrevi-me a pegar Fortunato por um braço, acima do cotovelo.
– O salitre! Veja, está aumentando. Parece musgo agarrado às paredes. Estamos em baixo do leito do rio. As gotas de umidade filtram-se entre os ossos. Venha, vamos antes que seja demasiado tarde. Sua tosse …
– Não é nada – disse ele. – Continuemos. Mas antes dê-me outro gole de Médoc.Quebrei o gargalo de uma garrafa de De Grave e entreguei-lha. Esvaziou-a dum trago. Seus olhos cintilavam, ardentes. Riu-se e jogou a garrafa para cima, com um gesto que eu não compreendi.Olhei surpreso para ele. Repetiu o grotesco movimento.
– Não compreende? – perguntou.
– Não.- Então não pertence à irmandade?
– Que irmandade?
– Você não é maçom?
– Sim, sim, sim, sim – respondi.
– Você? Maçom? Não é possível.
– Sou maçom, sim.- Mostre o sinal – disse ele.
– É este – respondi, retirando de sob as dobras de meu rocló uma colher de pedreiro.
– Você está brincando – exclamou ele, dando uns passos para trás – Mas vamos ver o Amontillado.
– Pois vamos – disse-lhe eu, recolocando a colher debaixo do capote e oferecendo-lhe, de novo, meu braço, sobre o qual se apoiou ele pesadamente. Continuamos o caminho em busca do Amontillado. Passamos por uma série de baixas arcadas, demos voltas, seguimos para a frente, descemos de novo e chegamos a uma profunda cripta, onde a impureza do ar reduzia a chama de nossos archotes a brasas avermelhadas.No recanto mais remoto da cripta, outra se descobria menos espaçosa. Nas suas paredes alinhavam-se restos humanos, empilhados até o alto da abóbada, à maneira das grandes catacumbas de Paris. Três lados dessa cripta interior estavam assim ornamentados. Do quarto haviam sido afastados os ossos, que jaziam misturados no chão, formando em certo ponto um montículo de avultado tamanho. Na parede assim desguarnecida dos ossos, percebemos um outro nicho, com cêrca de quatro pés de profundidade, três de largura e seis ou sete de altura. Não parecia ter sido escavado para um uso especial, mas formado simplesmente pelo intervalo entre dois dos colossais pilares de teto das catacumbas e tinha como fundo uma das paredes de sólido granito, que os circunscreviam.
Foi em vão que Fortunato, erguendo a tocha mortiça, tentou espreitar a profundeza do recesso. A fraca luz não nos permitia ver-lhe o fim.
– Vamos – disse, – aqui está o Amontillado. Quanto a Luchesi …- É um ignorantaço! – interrompeu meu amigo, enquanto caminhava, vacilante, para diante e eu o acompanhava rentee aos seus calcanhares. Sem demora alcançou ele a extremidade do nicho e, não podendo mais prosseguir, por causa da rocha, ficou estupidamente apatetado. Um momento mais e ei-lo acorrentado por mim ao granito. Na sua superfície havia dois anéis de ferro, distando um do outro cêrca de dois pés, horizontalmente. De um deles pendia curta cadeia e do outro um cadeado. Passar-lhe a corrente em tôrno da cintura e prendê-lo, bem seguro, foi obra de minutos. Estava por demais atônito para resistir. Tirando a chave, saí do nicho.
– Passe sua mão – disse eu – por sobre a parede; não poderá deixar de sentir o salitre. É de fato bastante úmido. Mais uma vez permita-me implorar-lhe que volte. Não? Então devo positivamente deixá-lo. Mas é preciso primeiro prestar-lhe todas as pequeninas atenções que puder.
– O Amontillado! – vociferou meu amigo, ainda não recobrado do espanto.
– É verdade – repliquei, – o Amontillado.
Ao dizer estas palavras pus-me a procurar as pilhas de ossos, a que me referi antes. Jogando-os para um lado, logo descobri grande quantidade de tijolos e argamassa. Com estes materiais e com o auxilio de minha colher de pedreiro, comecei com vigor a emparedar a entrada do nicho.Mal havia eu começado a acamar a primeira fila de tijolos, descobri que a embriaguez de Fortunato se tinha dissipado em grande parte. O primeiro indício disto que tive foi um surdo lamento, lá do fundo do nicho. Não era o choro de um homem embriagado. Seguiu-se então um longo e obstinado silêncio. Deitei a segunda camada, a terceira e a quarta e depois ouvi as furiosas vibrações da corrente. O barulho durou vários minutos, durante os quais, para gozá-lo com maior satisfação, interrompi meu trabalho e me sentei em cima dos ossos.
Quando afinal o tilintar cessou, tornei a pegar na colher e acabei sem interrupção a quinta, a sexta e a sétima camadas. A parede estava agora quase ao nível de meu peito. Parei de novo e, levantando o archote por cima dela, lancei uns poucos e fracos raios sobre o rosto dentro do nicho. Uma explosão de berros fortes e agudos, provindos da garganta do vulto acorrentado, me fez recuar com violência. Durante um breve momento hesitei. Tremia. Desembainhando minha espada, comecei a apalpar com ela em torno do nicho, mas uns instantes de reflexão me tranquilizaram.
Coloquei a mão sobre a alvenaria sólida das catacumbas e senti-me satisfeito. Reaproximei-me da parede. Respondi aos urros do homem. Servi-lhe de eco … ajudei-o a gritar … ultrapassei-o em volume e em força. Fui fazendo assim e por fim cessou o clamor.Era agora meia-noite e meu serviço chegara ao têrmo. Completara a oitava, a nona e a décima camadas. Tinha acabado uma porção dessa última e a décima primeira. Faltava apenas uma pedra a ser colocada e argamassa. Carreguei-a com dificuldade por causa do pêso. Coloquei-a, em parte, na posição devida. Mas então irrompeu de dentro do nicho uma enorme gargalhada, que me fez eriçar os cabelos. Seguiu-lhe uma voz lamentosa , que tive dificuldade em reconhecer como a do nobre Fortunato. A voz dizia:
– Ah! Ah! Ah! … Eh! Eh! Eh! … Uma troca bem boa de fato … uma excelente pilhéria. Haveremos de rir a bandeiras despregadas lá no palácio … Eh! Eh! Eh! … a respeito desse vinho …Eh! Eh! Eh!
– O Amontillado! – exclamei eu.- Eh! Eh! Eh! … Eh! Eh! Eh! … Sim, o Amontillado. Mas já não será tarde? Já não estarão esperando por nós, no palácio, minha mulher e os outros? Vamos embora.
– Sim – disse eu, – vamos embora.- Pelo amor de Deus, Montresor!
– Sim – disse eu, – pelo amor de Deus!Aguardei debalde uma resposta a essas palavras. Impacientei-me. Chamei de voz alta.
– Fortunato!Nenhuma resposta. Chamei de novo!- Fortunato!Nenhuma resposta ainda. Lancei uma tocha, através da abertura remanescente, e deixei-a cair lá de dentro. Como resposta ouvi apenas o tinir dos guizos. Senti um aperto no coração … devido talvez à umidade das catacumbas. Apressei-me em terminar meu trabalho. Empurrei a última pedra em sua posição. Argamassei-a. Contra a nova parede, reergui a velha muralha de ossos. Já faz meio século que mortal algum os remexeu. In pace requiescat!

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