Lauro Muller, a Pátria Brazileira está de luto

Extraído do “Novo Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro” de 1927.

Por Mauro Pereira da Silva

Está de luto a Patria Brazileira pela perda de um dos seus mais ilustres filhos.
A 31 de julho de 1926 um laconico telegrama trazia-nos a desoladora noticia do falecimento do dr. Lauro Muller, senador, e antigo ministro dos Negocios Estrangeiros do Brazil.
Acompanhamos, como sempre, a Nação irmã e amiga na sua dôr, prestando a sentida homenagem da nossa saudade áquele que foi um grande cidadão no seu paiz e tambem um grande amigo de Portugal.

Lauro Muller era uma das primeiras figuras politicas do Brasil. A sua intelligencia, a sua actividade, a obra que realisou déram-lhe um logar de merecido destaque entre a vasta galeria de homens ilustres que brilham com vivido fulgor na Historia do Brazil contemporaneo. Como aluno da Escola Militar fez curso de engenharia com classificações brilhantissimas, e desde então começou a realçar e a impor-se a sua personalidade notavel.

Foi discipulo querido de Benjamim Constant, que nele previu as brilhantes qualidade que mais tarde se deviam manifestar com tanta exuberancia. Desde muito novo abraçou o ideal republicano, e as suas crenças mais se acentuaram na convivencia com o austero e incorruptivel fundador da Republica Brazileira, esse grande e inconfudivel vulto de sabio, filosofo e apostolo, que é uma das maiores glorias da America.

Foi um dos mais decididos revolucionarios, trabalhando com entusiasmo para a queda do Impreio, patenteando as maiores capacidades de organisador com que a Republica contou. Deodoro da Fonseca, que o estimava como filho, nomeu-o governador de Santa-Catarina, seu estado natal, e ahi os seus actos de administrador impuzeram-no como um estadista notavel, a um tempo habil e prudente.

Foi deputado ás Constituintes, fazendo parte do grupo de oposição ao marechal Floriano. Advogou com energia a causa da amnistia aos condenados de 1 de abril de 1892, mas assim que rebentou a revolução de 1893 pôz-se ao lado de Floriano, até de armas na mão. Foi reeleito deputado, mostrando-se um parlamentar de grande valor, com vastos recursos e larga preparação cultural. Foi um jornalista notável, e na imprensa teve ocasião de revelar o seu espirito em uma das suas mais brilhantes modalidades.

Floriano Peixoto, revolucionário

Escreveu em varios jornaes entre eles a Republica, dirigido por Glicerio, ao lado de Alcino Guanabara e João Lopes. Eleito senador federal em 1900, foi em 1902 nomeado governador do Estado de Santa-Catarina, cargo de que não chegou a tomar posse por ter sido chamado a gerir a pasta da Viação pelo Presidente Rodrigues Alves, lugar que exerceu com o mais alto criterio. Como ministro sua obra foi colossal, foi êle que deu o impulso que transformou o Rio de Janeiro em uma das mais formosas capitais do mundo.

As suas medidas de fomento forma de largo alcance e a elas deve em grande parte o Brazil e seu progresso. Melhorou e construiu portos, como o do Rio de Janeiro e da Bahia, construiu estradas e caminhos de ferro, e dedicou toda a sua atenção e energia a um belo plano de levantamento economico.

Viajou bastante, em viagem de recreio e de estudo, vindo á Europa, onde percorreu vários paizes. Pelo falecimento de Rio Branco, essa outra grande gloria brazileira, foi chamado pelo marechal Hermes da Fonseca a gerir a pasta das Relações Exteriores, onde se conservou até meado da presidencia de Wencesleu Braz. Nesse alto cargo, tão dificil no momento, se evidenciaram exhuberantemente as suas notaveis qualidades de diplomata e estadista. Foi Lauro Muller que preparou a atitude do Brazil em face da Grande Guerra. Logo que rebentou o conflito, o dilema que propoz á Alemanha fez com que a Grande Nação Brazileira viessem ocupar o seu logar junto das nações aliadas.

A este notavel estadista se deve a iniciativa do A. B. C. (Argentina, Brazil, Chili), e foi ele que, como ministro de Wenceslau Braz, foi á Argentina e ao Chili tratar da constituição daquele grupo  internacional destinado a resolver todas as questões suscitadas não spó entre os tres Estados componentes mas ainda entre quaesquer outras potencias americanas. Deixou o ministerio por pequenas divergencias sobre politica interna, indo substitui-lo o Dr. Nilo Pessanha, que era então presidente de estado do Rio.

Foi novamente eleito para a presidencia do Estado de Santa-Catarina, mas não tomou posse, preferindo conservar-se no Senado, onde exerceu sempre as funções de presidente da Comissão de Diplomacia e Tratados.Foi Lauro Muller que desempenhou a missão de ir aos Estados Unidos da America agradecer a visita do Secretario de Estado norte-americano Root.

Foi também ele que chefiou a embaixada brazileira que no ano de 1925 foi tomar parte nas festas do Centenario da Independencia do Uruguay.

 

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