Maupassant, talento e loucura

A SALPÊTRIÈRE

(Extraido do “Livro de San Michele” de Axel Munthe, Edição da Livraria do Globo, edição 1947)

” Nunca deixava de assistir às famosas lições das terças-feiras do Professor Charcot, na Salpêtrière, então dedicadas à “grande história” e ao hipnotismo. O vasto anfiteatro regurgitava de um público multiforme que acorria de todo o país; escritores, jornalistas, atores e atrizes, semimundanas elegantes, todos espicaçados por uma curiosidade mórbida de presenciar os surpreendentes fenômenos do hipnotismo, quase esquecido, desde os dias de Mesmer e Braid.

Foi precisamente numa daquelas conferências que travei conhecimento com Guy de Maupassant, já então famoso pela sua Boule de Suif e a inolvidável Maison-Tellier. Falava sempre de hipnotismo e de toda a espécie de perturbações mentais, e não se cansava de questionar-me para conhecer o pouco que eu sabia dessas matérias. Procurava conhecer todos os pormenores a respeito de loucura, pois recolhia material para a sua terrível obra La Horla, quadro fiel do seu trágico futuro.

Uma vez acompanhou-me até Nancy para visitar a clínica do Professor Bernheim, o que me abriu os olhos sobre os erros da escola de Salpêtrière quanto ao hipnostismo. Também fui durante alguns dias hóspedes a bordo do seu iate. Recordo-me perfeitamente de uma noite inteira que passamos falando da morte no salãozinho do seu Bel-Ami ancorado no porto de Antibes. Maupassant temia a morte; disse-me que a idéia da morte quase nunca o abandonava. Queria saber as propriedades dos diferentes venenos, a sua rapidez de ação e relativa ausência de dor. Insistia particularmente sobre a morte no mar. Disse-me que supunha que a morte no mar, sem um salva-vidas, era relativamente fácil; mas, com ele devia ser a mais terrível de todas. Ainda me parece estar a vê-lo, contemplando com seus olhos profundos os salva-vidas colocados na porta e ouvir-lhe dizer que na manhã seguinte os deitaria à água. Perguntei-lhe se pensava em afogar-nos durante o nosso projetado cruzeiro à Córsega. Permaneceu um momento silencioso e por fim respondeu que não, que pensava morrer os braços de uma mulher. Respondi-lhe que tinha as maiores probabilidades, com a via que fazia, de conseguir o seu desejo.

Enquanto falava, Yvone despertou e, meio adormecida, pediu outra taça de champanhe, voltando a adormecer com a cabeça nos joelhos de Maupassant. Era uma bailarina de dezoito anos, acostumada às viciosas carícias dos velhos que freqüentam os bastidores da Ópera, e que ia a caminho de perder-se completamente a bordo do Bel-Ami, nos braços do seu terrível amante. Bem sabia que nenhum salva-vidas a poderia salvar; que a jovem o teria repelido, se alguém lho oferecesse; que, juntamente com o corpo, tinha dado o coração àquele insaciável macho que só pedia o corpo. Sabia qual seria seu destino, pois não era a primeira rapariga a quem vira adormecida com a cabeça nos joelhos do escritor.

Até onde ele era responsável pelos seus atos eis outro problema. O temor lhe acossava o cérebro, dia e noite atormentado transluzia-lhe nos olhos; e eu, já o considerava como um homem perdido. Sabia que o sutil veneno da sua Boule de Suif já começara a destruir aquele magnifico cérebro. Também ele o suspeitava? Assim me pareceu muitas vezes. Sobre a mesa que havia entre nós dois estava o original da sua obra Sur l’Eau, alguns capítulos da qual acabava de ler-me, e que eu reputava o melhor de tudo quanto havia escrito. Continuava produzindo com velocidade febril obras-primas, uma atrás das outras, estimulando o excitado cérebro com champanhe, éter, e toda a espécie de drogas. Mulheres, umas a seguir às outras, em interminável sucessão, precipitavam o colapso, mulheres recrutadas em todos os bairros, desde o Faubourg Saint-Germain, até aos bulevares, atrizes, bailarinas, midinettes, grisettes, rameiras vulgares. Os amigos chamavam-lhe “o touro triste”. Mostrava-se desmedidamente orgulhoso dos seus êxitos; aludia a senhoras misteriosas da mais alta sociedade, introduzidas na sua casa da rua Clauzel pelo seu fiel criado François, – primeiro sintoma da sua próxima loucura das grandezas.

Subia às vezes a correr as escadas da Avenida de Villiers, sentava-se a um canto do meu gabinete, olhando-me em silêncio com aquela mórbida fixidez de olhar que tão bem lhe conhecia. Permanecia com freqüência alguns minutos parado, a contemplar-se no espelho da chaminé, como se olhasse um estranho. Contou-me um dia que, enquanto sentado na sua cadeira escrevia uma nova obra, sentira uma viva surpresa ao ver entrar no gabinete um estranho, apesar da severa vigilância do criado. O intruso sentou-se na sua frente e começou a ditar-lhe o que ele ia escrever. Dispunha-se a chamar François, para o mandar pôr na rua quando viu com horror que o intruso era ele próprio.

Dois dias depois estava eu ao pé dele na Ópera, entre os bastidores, olhando Yvone, que bailava um pas-de-quatre sorrindo, às escondidas do amante, cujos olhos reluzentes nunca se apartavam dela. Ceamos tarde no elegante andar que ele acabava de alugar para Yvone. Quando ela tirou um pouco as cores do rosto, fiquei espantado ao ver como estava pálida e gasta, em comparação da primeira vez que a vi no iate. Disse-me que sempre tomava éter quando bailava; que não havia nada melhor do que éter como reconstituinte; todas as suas companheiras o tomavam e até o próprio Monsieur le Directeur du Corps de Ballet.

Com efeito vi-o morrer por isso mesmo anos depois na sua casa de Capri. Queixava-se Maupassant de que Yvone emagrecia muito e de noite não o deixava dormir com a sua tosse pertinaz. A seu pedido auscultei-a na manhã seguinte: mostrava graves sintomas no vértice de um pulmão. Disse a Maupassant que a jovem tinha que observar um repouso absoluto, e aconselhei-lhe a que a mandasse durante o inverno para Menton. Maupassant respondeu-me que faria com muito gosto quanto pudesse por ela. Aliás, não lhe agradavam as mulheres magras. A rapariga negou-se em absoluto a partir, preferindo morrer a deixá-lo. Deu-me muito que fazer durante o inverno, e trouxe-me muitos e novo doentes. Uma após outra, as suas companheiras começaram a aparecer pela minha casa da Avenida de Villiers para consultar-me às escondidas, com receio de que o médico titular da Ópera as pudesse deixar a meio soldo. Os bastidores do corpo de baile representavam para mim um mundo novo, não isento de perigo para um explorador inexperiente; porque, desgraçadamente, não era só no altar da deusa Terpsicore que aquelas jovens vestais depunham as grinaldas da sua mocidade. Felizmente a deusa daquelas pobres raparigas foi expulsa do meu Olimpo com os últimos e olvidados sons da Chaconne de Gluck e do Minuete de Mozart, o que restava não representava aos meus olhos mais do que simples acrobacia. O mesmo não acontecia com os habitués dos bastidores. Não cansava de assombrar-me da facilidade com que aqueles decrépitos tenórios perdiam o equilibrio próprio, contemplando aquelas raparigas seminuas, que mantinham o seu na ponta dos pés.Yvone teve a primeira hemorragia e a doença progredia seriamente. Maupassant, como todos os escritores que descreviam a doença e a morte, odiava vê-las de perto. Yvone tomava duzias de frascos de óleo de fígado de bacalhau para engordar, pois sabia que o amante não gostava de mulheres magras. Tudo em vão. Em breve, da sua bela juventude, não restavam mais do que os olhos maravilhsos, incediados pela febre e o éter. A bolsa de Maupassant continuava aberta para ela, mas de pronto os braços apertaram o corpo de uma das suas companheiras. Yvone arrojou uma garrafa de vitríolo à face da rival. Por fortuna mal acertou, e escapou com dois meses de cadeia, graças à poderosa influência de Maupassant e a um atestado meu em que declarava que a rapariga tinha poucos meses de vida. Ao sair da prisão negou-se a voltar à casa onde vivera com Maupassant, apesar dos seu rogos. Desapareceu na imensidade desconhecida da vasta cidade como um animal condenado que se esconde para morrer.

Uma mês depois encontrei-a, por acaso, numa cama do hospital de Saint Lazare, última estação da Via Crucis das mulheres perdidas de Paris. Disse-lhe que o iria comunicar a Maupassant, o qual, estava certo, não tardaria em procurá-la. Nessa mesma tarde fui à casa do escritor. Não havia tempo a perder. Era fora de dúvida que à pobre não restavam muitos dias de vida. O fiel François mantinha-se no seu habitual posto de cérbero defendendo o amo contra os intrusos. Em vão tentei ser recebido; as ordens eram terminantes. Visita alguma, sob qualquer pretexto podia ser introduzida: era a costumada história da senhora misteriosa. Como único recurso fui obrigado a escrever um pequeno bilhete, referindo-lhe o caso, que François prometeu entregar. Nunca consegui saber se lhe chegou às mãos. Suponho que não, porque François procurava sempre afastar do amo as histórias molestas de mulheres. Quando um dia depois fui a Saint Lazare, Yvone estava morta. Disse-me a monja que tinha passado a manhã a pintar a cara, a pentear os cabelos, e pedira até a uma velha prostituta da cama ao lado que lhe emprestasse o seu xale de seda encarnada, último vestigio de um antigo esplendor, para esconder os ombros esquálidos. À monja dissera que esperava o seu senhor; inquieta, esperou durante todo o dia; mas este não foi. Na manhã seguinte encontraram-na morte no leito. Ingerira até a última gota a poção de cloral.

Dois meses depois vi Guy de Maupassant em Passy, no conhecido manicômio da Maison Blanche. Dava voltas pelo braço de seu fiel François atirando pedrinhas nos canteiros de flores, com o gesto do Semeador de Millet. – Olha, olha – dizia ele, – se vier chuva hão de nascer todas na primavera como pequenos Maupassants.”

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