Nelson Rodrigues, o gênio

“Aos nove anos, na Escola Prudente de Morais, sou considerado gênio por alguns, um tarado em potencial pelas professoras e um maluco pelas alunas. Nessa época, vivo a minha primeira experiência de escritor, ao concorrer a ganhar um prêmio de redação. O Prêmio, dividido com um colega. A história que contei: um adultério – em que o marido mata a mulher a punhaladas. A minha primeira “A vida como ela é.” Assim, Nelson Rodrigues narra em suas “´Memórias” (1967) uma situação que condensa, por um lado, certas obsessões temáticas de sua obra e, por outro lado, as opiniões controvertidas que cercavam seus escritos e sua personalidade.

Nelson Falcão Rodrigues nasceu a 21 de agosto de 1912 na cidade de Recife, onde viveu até os cinco anos. Em 1917 veio com a família para Aldeia Campista, no Rio de Janeiro. Ao recordar suas primeiras sensações, destaca “o gosto de pitanga e de caju e o cheiro de cavalo, de estábulo. Mesmo considerando o mundo um péssimo anfitrião e a viagem a mais burra das experiências humanas, voltei a Pernambuco, na mocidade, retornando à infância e às suas profundas sensações”.

Aos treze anos abraça a carreira jornalística como repórter policial do jornal ” manhã”, que pertencia a seu pai, Mario Filho. Mais uma vez, o próprio Nelson nos revela o significado dessa experiência: ” reportagem policial vai transformar-se para sempre num dos elementos básicos de minha visão de vida. Através dela tive intimidade com a morte (que sempre me apavorou) e nela vi um cadáver pela primeira vez. O jornalismo, daí em diante, passou a ser vital para mim. Tinha, entretanto, intenções literárias – ser romancista, a principal delas. Veio o teatro, porém”.

Sua experiência com a morte não se resumiu à carreira como repórter policial. Em 1929, seu irmão Roberto foi assassinado por engano, na redação de “A critica”, jornal de linha sensacionalística, que também pertencia a seu pai. Este morreria de desgosto, ou de “paixão”, como dizia Nelson, alguns meses depois. A família viu-se, de uma hora para outra, condenada à mais extrema pobreza. Nelson foi trabalhar no jornal “O Globo”. Pouco depois, ele e o irmão Jofre foram enviados a Campos do Jordão. Ficaram lá quatro anos. Jofre morreu e Nelson retornou ao Rio.

Pressionado pelas dificuldades, resolveu escrever uma chanchada para o teatro, garantia de dinheiro certo. Mas não conseguiu. O resultado foi sua primeira peça, “A mulher sem pecado”, estreada em 1941 no Teatro Carlos Gomes. Em seguida veio “Vestido de noiva”, encenada em 1943 sob a direção de Ziembinski. Nelson relembra: ´E de repente foi a apoteose, uma coisa incrível. Todo mundo me chamando de Pirandello. Naquele tempo, todo autor que não fosse um débil mental era pirandelliano”.

Na dramaturgia de Nelson Rodrigues, a mais importante e renovadora de toda a história do nosso teatro moderno, pode-se observar uma intensa exploração das forças do inconsciente, uma visão desmistificadora e cruel da família como núcleo de conflitos e desvios, uma revelação dos mitos característicos da sociedade brasileira. Para Sabato Magaldi, um de nossos mais conhecidos críticos teatrais, “a personagem rodriguiana abandonou o comportamento convencional para mergulhar nos desvãos do indivíduo, gritando para o espectador sua intimidade mais inconfessável. Perseguido pela censura, com oito peças interditadas ao longo de sua carreira, foi acusado tanto de imoral como de reacionário obcecado com estereótipos (dizem que não permitia que sua esposa saísse à rua sozinha).

Seus romances, embora considerados como um aspecto secundário de sua obra, revelam a mesma intensidade no tratamento de situações patéticas e grotescas que sua obra teatral. A origem desses romances está nas crônicas escritas sob o título “A vida como ela é”, uma coluna iniciada em 1951, no jornal “Última Hora”. Nesses retratos da sociedade carioca, avulta uma das qualidades essenciais do autor: seus diálogos rápidos, flexíveis, diretos e enxutos, capazes de caracterizar, em poucas palavras, uma situação ou uma personagem. Suas crônicas revelam um fabuloso observador da miséria e da fraqueza humanas. Polêmico, provocador, Nelson qualificava-se de “reacionário” e de “uma flor da obsessão”, mas ninguém soube captar como ele as neuroses e desventuras do cotidiano de nossa realidade urbana.

Faleceu a 23 de agosto de 1980, no Rio de Janeiro, com uma parada cardíaca.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *