O drama e a glória do padre António Vieira, Mário Domingues

“Em dezembro de 1615, uma airosa caravela, cujo nome se sumiu na poeira da História, saía a Barra do Tejo e tomava o rumo do Brasil. Não era muito agradável, por essa época, uma longa viagem pelo mar. Os navios careciam do mínimo conforto. Os viajantes acumulavam-se a trouxe-mouxe. A higiéne não ia muito além da baldeação diária das cobertas, o que não impedia o desenvolvimento prodigioso de legiões de parasitas das mais variadas espécies.

Pululavam as ratazanas que engordavam nos porões. A água doce, mal resguardada em barris, ao cabo de alguns dias, corrompia-se e, mesmo assim, esverdeada e mal cheirosa, se bebia. A alimentação, à base de peixe em salmoura e carnes salgadas, sem uma fresca verdura de horta, nem um fruto bem sazonado, tornava-se pouco menos que intragável e dava origem a enfermidades terríveis, entre as quais o escorbuto, que a mal apetrechada medicina de então atalhava com remédios absurdos. E, a agravar todos os males, andavam os mares infestados de piratas holandeses.”

‘O Drama e a Glória do Padre António Vieira, Edição Romano Torres (Lisboa), 1952.

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