Revista Realidade Outubro/1970 – Salvador Allende

Quem é o homem que os socialistas e radicais querem colocar no governo do Chile? O que pensa, o que quer?

Texto de Luis Edgar de Andrade – Fotos de Geraldo Guimarães

O rádio acaba de dar o resultado oficial. Salvador Allende, 62 anos, pai de três belas moças e avô de um casal de meninos, está eleito presidente do Chile por uma coligação de partidos de esquerda, encabeçada por socialistas e comunistas. É a primeira vez no mundo que um marxista chega ao poder através de eleições livres. Na sala de visitas de um chalé da Calle Guardia Vieja, o homem gordo, entroncado, de bigodes grisalho, está comovido. Ele sorri:
– A revolução no Chile terá o sabor de pastéis e vinho tinto.
Quem é Salvador Allende?
– Sou tão apenas um homem com todas as fraquezas e debilidades dos outros homens.
Uma vez ele disse, depois de perder três eleições:
– Se eu de novo for derrotado, continuarei lutando. E, se nunca conseguir eleger-me, deverão escrever em meu epitáfio: “Aqui jaz Salvador Allende Gossens, futuro presidente do Chile”.

De militar a médico

A vitória de hoje e põe humilde:
– Se eu soube suportar a derrota outrora, porque cumpria uma tarefa, hoje, sem soberba, e sem espirito de vingança, aceito este triunfo, que nada tem de pessoal e que devo à unidade dos partidos populares e às forças sociais que estão comigo.
– O senhor acredita que tomará posse no caso de ser eleito? – perguntou-lhe um jornalista francês, em 1964, quando disputava a presidência com Eduardo Frei.
– Claro que sim – respondeu à queima-roupa.
Desta vez repeliu a insinuação do golpe de Estado, dizendo que “no Chile o Exército é o povo fardado”.
Há muitos anos vem preparando o seu esquema militar. Afirma-se em Santiago que o fato de pertencer à Maçonaria, cuja influência no Exército é considerável, contribuiu para sua carreira política. Quando o General Roberto Viaux chefiou o levante do Regimento Tacna, em outubro de 1969, a pretexto de um aumento de soldos, o Senador Allende foi um dos poucos polticos a visitar os militares amotinados. Aliás, dos três candidatos, é o único que fez serviço militar.
Sua babá, ainda viva, Mamãe Rosa, de 82 anos, dá o testemunho.
– Era um menino danado. Queria ser militar quando crescesse, mas depois se decidiu pela medicina. Os inimigos dizem que, como médico, só assinou atestados de óbito.
– É verdade – ele confirma, bem-humorado -, pois quando me formei, o único emprego que consegui foi um lugar de legista no necrotério, que ninguém queria.
Seu avô, um grande médico, ficou famoso cem anos atrás, combatendo no Chile uma epidemia de cólera. Nasceu numa família de médicos. Resultado: em 1926 entrou para a faculdade de medicina. Aluno brilhante. Por sua combatividade, acabou presidente do diretório estudantil da escola e depois vice-presidente da Federação dos Estudantes. Custeava os estudos trabalhando como interno num hospício. A psiquiatria foi tema de sua tese de doutoramento.
Nos dias agitados que viveu o Chile, durante a única ditadura que teve o país em 160 anos de independência (1926-32), esteve duas vezes encarcerado por ordem do General Ibañez e depois confinado numa cidade do interior.
No começo da carreira, lecionou medicina social na universidade. Os antigos alunos recordam que a aula do Professor Allende era uma espécie de show, aplaudido toda vez que acabava.

Uma carreira paciente

Santiago, 1932. Escoltado por dois policiais, o jovem estudante faz um juramento público e solene diante do caixão mortuário: o de dedicar sua vida à luta social. É Salvador Allende, 24 anos, preso por ter participado de uma manifestação estudantil contra a ditadura. A policia lhe deu uma hora de permissão para ver o cadáver do pai.
O estudante Salvador cumpriu sua palavra. No ano seguinte, foi um dos fundadores do Partido Socialista do Chile e era eleito deputado por Valparaiso. De 1937 a 1942 ocupou o Ministério da Saúde em um governo de frente popular que chegou ao poder através de uma coligação de partidos muito semelhante à que agora lhe deu a vitória.
Um dia lhe perguntaram qual o melhor lugar do Chile para trabalhar.
– O Palácio de La Moneda, sede do governo – respondeu sem pestanejar.
Foi derrotado sucessivamente por Ibañez, Alessandi e Ferri. Fez esta confissão ao disputar com Frei:
– Faz trinta anos que desejo ser presidente do Chile.
Teve, no entanto, de esperar mais seis. A primeira candidatura, em 1952, foi simbólica. “Un saludo a la bandera”, como hoje acha. Chegou em último lugar, com 52000 votos (5,5% do eleitorado). A diferença de votos para o ex-ditador Ibañez: 400 000. Em 1958 perdeu por um triz. Teve 356 000 votos (28,9%) e Jorge Alessandri ganhou com apenas 36 000 à sua frente. Na terceira vez, em 1964, recebeu 975 000 votos, perdendo para Frei por quase 400 000. Finalmente, este ano livrou-se da sina de eterno perdedor. Mas, como não conseguiu ainda maioria absoluta, a Constituição chilena manda que sua vitória seja referendada pelo Congresso.
– Como vê as eleições do ano 2000?
– Sem minha candidatura ….provavelmente.

Os idolos na parede

O relógio Rolex, que usa no pulso, pertenceu a Fidel Castro. É o resultado de uma troca, em que saiu perdendo. No ano passado Salvador Allende fez uma viagem aos paises comunistas do Terceiro Mundo: Cuba, Coréia do Norte e Vietnam do Norte. Na escala em Havana tinha um relógio com pulseira de ouro, despertador. Fidel viu e ficou encantado.
– Um despertador de pulso! Não diga! Como é que desperta, Salvador? Allende explicou o funcionamento do relógio.
– Vamos trocar? – Fidel propôs na hora – Dou-lhe o meu Rolex, ele vale mais.
– Não vale, Fidel. O meu é de ouro. O seu, de aço.
Mas tanto o primeiro-ministro de Cuba insistiu, que o senador chileno aceitou a troca. No dia seguinte Raul Castro, irmão de Fidel, queixou-se:
– Salvador, para que é que você foi dar aquele relógio ao Fidel? Ontem ele passou a reunião do gabinete a brincar com o despertador de pulso. De instante a instante, a campainha tocava. Ninguém pode trabalhar.

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