Tácito

Chamou-se Cornelius Tacitus. Admite-se que haja nascido de boa família entre os anos de 54 e 56, depois de Cristo. Seu falecimento parece ter ocorrido no ano de 120. Sua vida durou, consequentemente, de 64 a 66 anos, atravessando a fase de governo de vários imperadores.

Entre estes imperadores se incluem Nero, que se suicidou; Galba, que foi assassinado; Oto, que se retirou da existência por suas prórpias mãos; Vitélio, que foi assassinado; Vespasiano Tito, filho de Vespasiano Domiciano, também filho de Vespasiano, e que foi assassinato numa conspiração chefiada por sua esposa; Nerva Trajano, adotado por Nerva como filho e sucessor; e Adriano.

Não se conhece a data exata do nascimento de Tácito, nem o lugar preciso em que tal nascimento se deu. Acredita-se que haja nascido em Terni, na Úmbria, Itália, e falecido em Roma. Quanto aos seus ascendentes, tem-se notícia, apenas, de um funcionário, que também se chamou Cornélio Tácito, mas que não se sabe se foi pai ou tio do historiador. A notícia está na História Natural (VII, 16, 76), de Plinio, o Velho, e diz que o citado funcionário romano administrava os impostos da Gália Belga. Deduziu-se, por aí, que, filho ou sobrinho do aludido cavalheiro de Roma, Tácito procedeu de uma das muitas famílias, cujos varões exerciam cargos fiscais – cargos esses de grandes responsabilidades e também de excelentes oportunidades para a acumulação de fortunas pecuniárias.

É certo que o ascendente mais próximo de Tácito, que se incumbiu da educação deste, fez questão de que o então futuro historiador entrasse para o círculo da melhor sociedade do tempo, e se preparasse para as mais altas dignidades publicas, a fim de receber o laticlavo – a toga dos senadores e cavaleiros da antiga Roma, que se guarneceria de amplo debrum de púrpura.
Também quanto à educação e à carreira pública de Tácito, muitas dúvidas existem, e, provavelmente, nunca mais serão dissipadas.

A este propósito, o mais que se conhece é tomado das referências que o próprio historiador fez de si mesmo, em seus escritos. Como, porém, Tácito pertence ao número dos escritores antigos que menos se deleitaram com contar aos contemporâneos, ou aos pósteros, as peripécias de sua vida particular, os dados disponiveis são parcos. E a melhor fonte, neste assunto, ainda são as onze cartas que Tácito enviou ao seu amigo íntimo, Plínio, o Moço.

Afirma Tácito, nas Histórias (1, I), que “minha situação política começou durante o reinado de Vespasiano, melhorou com o de Tito, e subiu ainda mais com o de Domiciano”. Tácito foi, sem dúvida, questor, na época de Vespasiano – tribuno, ou, presumivelmente, edil, ao tempo de Tito (lá pelo ano de 80 ou 8l), quando contava pelo menos vinte e cinco anos de idade. No ano de 77, Tácito fez-se noivo da filha de Cneio Júlio Agrícola, casando-se com ela no ano seguinte (78). Agrícola, genral de magnífica reputação, era cônsul e estava de partida para a Bretanha, a fim de a conquistar, como de fato a conquistou, quando casou sua filha. E por aqui se positiva que Tácito devia descender de família ilustre, porquanto, do contrário, não lhe seria aberta a possibilidade dessa categoria social de matrimônio. De sua esposa, Tácito (em Agrícola, 4) diz apenas que se tratava de “moça de bela esperança”.

No ano de 88, em pleno governo de Domiciano, Tácito – como pretor, e como membro de um colégio muito importante de religiosos, a que só pertenciam descendentes de famílias ilustres – presidiu os jogos seculares. No ano de 89, saiu de Roma, ausentando-se por quatro anos. Admite-se que tenha ido administrar uma província nas redondezas da Germânia, e, com mais verossemelhança, a Gália Belga. Das oportunidades proporcionadas pelo posto que foi ocupar é que resultou o livro Germânia, trabalho de observação arguta e profunda a respeito dos povos “bárbaros”, contra os quais advertiu os Romanos, por constituirem, no seu pensar, “ameaça” à segurança do Império.

Voltando a Roma no ano de 93, Tácito não se deu muito bem com o regime inicial de Domiciano. Recolheu-se à obscuridade voluntária, aceitando passivamete aquele governo de desconfiança e de terror, para sobreviver. Com a ascensão de Nerva ao trono de Roma, a vida de Tácito, já então senador, se fez novamente próspera, melhorando muito com o advento de Trajano, sucessor de Nerva. No Agrícola, Tácito se refere ao governo de Trajano, dizendo ter sido “um tempo singularmente abençoado”; mas descreve, com evidente amargura, a época de Domiciano, por se haver, durante o governo deste, perdido a melhor parte da sua juventude. Tanto é assim que, superada essa época, Tácito se considera envelhecido e, na verdade, “sobrevivente de si mesmo”.

No curso de sua vida, Tácito, que, de modo sumário, na bibliografia romana, aparece com a qualificação de “favorito dos Césares”, se viu aureolado de todas as mais elevadas dignidades públicas e intelectuais a que um cidadão do seu tempo poderia aspirar – afora a dignidade de imperador. Viveu vida intensa, por vezes sombria, sem dúvida, mas quase sempre iluminada por acontecimentos aristocráticos, de ampla significação política e social. Foi admirado e querido pelas mulheres de sua época, sendo, igualmente, admirado e querido pela juventude que anisava por adquirir, ou imitar, a magia da sua eloqüência e a técnica superior da oratória.

Moralmente, Tácito foi homem moderado, de costumes predominantemente austeros, preferindo, sem prejuízo do seu gênio, o equilibrio da virtude média e sensata aos exageros do fanatismo, que cegam, ou aos transbordamentos do entuasiamo, que embrigam.

Postado por Mauro Pereira da Silva

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